JJ
Legendários - Ri pra não Chorar
O machismo brasileiro deixou de ser apenas uma tragédia social.
Legendários - Ri pra não Chorar
Por JJ
Há tempos o machismo brasileiro deixou de ser apenas uma tragédia social. Virou também um gênero de comédia involuntária.
Enquanto o país registra crescimento alarmante nos casos de feminicídio, enquanto mulheres seguem morrendo dentro de casa pelas mãos de homens que juravam “amar”, uma parte da masculinidade nacional resolveu entrar no mato para brincar de guerra espiritual com kit obrigatório de… vaselina, talco e pomada antiassadura.
O nome do movimento é [Legendários](https://legendarios.org?utm_source=chatgpt.com). Uma espécie de escotismo testosterônico gourmetizado, onde adultos barbados pagam caro para subir morro, sofrer coletivamente e voltar para casa acreditando que descobriram o sentido da existência porque atravessaram uma trilha segurando uma corda e chorando ao pôr do sol.
Nada contra trilhas. Nada contra homens chorarem. Pelo contrário. O problema começa quando a masculinidade vira um teatro tão exagerado que parece escrita por um roteirista da Globo satirizando coach quântico.
O sujeito passa anos incapaz de lavar um prato sem achar que está “perdendo autoridade no lar”, mas aceita dormir abraçado com cinquenta homens desconhecidos numa montanha porque um líder espiritual disse que aquilo vai despertar o “macho alfa servo do reino”.
E aí vem a lista do evento: vaselina, talco e pomada.
O Brasil inteiro lendo aquilo e pensando: “Meu Deus… os caras estão fundando um quartel ou ensaiando uma convenção secreta da Renascença homoerótica?”
Porque existe algo profundamente curioso em certos homens que passam a vida inteira performando uma heterossexualidade militarizada, mas demonstram um desconforto tão grande diante das mulheres reais que preferem fugir para o mato em retiros exclusivamente masculinos, onde podem finalmente viver seu grande sonho: passar três dias longe de mulheres falando sobre masculinidade… com outros homens.
Muitos desses mesmos sujeitos chamam feminista de “mal amada”, mas aparentemente precisam escalar cachoeira em fila indiana para conseguir dizer “eu te amo, irmão”.
Talvez o problema nunca tenha sido a fragilidade feminina. Talvez seja o colapso emocional masculino.
Porque o homem brasileiro foi educado para tudo, menos para lidar com sentimentos. Não pode demonstrar medo, não pode demonstrar vulnerabilidade, não pode pedir ajuda. Resultado: vira um adulto emocionalmente analfabeto, incapaz de conversar com a esposa, mas disposto a pagar inscrição para ouvir um estranho gritando no meio da mata: “VOCÊ É UM GUERREIROOOOO!”
E ele chora. E abraça. E se cura. E passa talco.
No fundo, existe uma tristeza imensa escondida nisso tudo. Homens que nunca aprenderam afeto sem hierarquia. Que só conseguem se abrir emocionalmente quando a sensibilidade vem fantasiada de treinamento de guerra, sobrevivência ou missão divina.
O patriarcado faz isso: destrói mulheres na ponta mais cruel da violência, mas também mutila homens emocionalmente até que carinho precise vir embalado como operação militar.
Talvez por isso tanta raiva contra mulheres independentes. Elas lembram algo insuportável: que amadurecer emocionalmente exige mais coragem do que fingir virilidade num acampamento temático.
E no meio de tudo isso, o feminicídio cresce.
Porque o mesmo país que ensina homens a temerem parecer frágeis também ensina que perder controle sobre uma mulher é perder a própria identidade.
Depois dizem que feminismo exagera.
Exagero mesmo é um adulto precisar de vaselina espiritual para descobrir que poderia simplesmente fazer terapia.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




COMENTÁRIOS