MK - Marcelo Kieling
Faria Lima x Feira:
A festa é na Faria Lima e a conta é do Brasil inteiro
Faria Lima x Feira:
O que fazer quando a festa é na Faria Lima e a conta é do Brasil inteiro
Por Marcelo Kieling
Há uma imagem que circula nas redes sociais e resume o Brasil de 2026: um gráfico do Ibovespa disparando lado a lado com a foto de um supermercado cheio de preços altos e consumidores apertando os centavos. A legenda poderia ser "Faria Lima x Feira". O país vive um contraste econômico que não é novo, mas atingiu um nível difícil de ignorar.
A pergunta de hoje não é "por que a bolsa sobe?", mas "por que a bolsa sobe apesar do país?"
O descolamento
A resposta começa com uma palavra: descolamento. A Bolsa de Valores brasileira tornou-se um termômetro do capital global em busca de rendimento, não um espelho da economia nacional.
O investidor estrangeiro que coloca R$ 64 bilhões na B3 neste ano não está apostando em um projeto de desenvolvimento brasileiro. Está apostando em um trade: juros reais altos, commodities valorizadas, moeda estável e risco político relativamente controlado. Isso não é desenvolvimento. É arbitragem financeira — o capital que entra hoje pode sair amanhã.
O problema é que o governo, ao ver os recordes, interpreta como validação de sua política econômica. O Ministério da Fazenda chama de "sucesso da política de desenvolvimento sustentável".
Mas onde está o desenvolvimento?
Onde está o investimento em infraestrutura logística que reduz o custo Brasil?
Onde está a reforma da educação que prepara a mão de obra para o século XXI?
Onde está a política industrial que vai além de subsídios setoriais?
Onde está a simplificação tributária que liberta o empreendedor?
Não estão. O que há é um ano eleitoral com a máquina pública funcionando a pleno vapor para sustentar popularidade: gasto social turbinado, isenção de IR, crédito subsidiado. Estas medidas que aquecem o consumo no curto prazo, não alteram em nada a capacidade produtiva do país.
Enquanto isso, o Banco Central aperta os juros para conter a inflação gerada por esse mesmo estímulo — e o capital externo adora, porque Selic alta significa rendimento garantido.
A armadilha dos juros altos
Há um nome para esse ciclo: armadilha dos juros altos.
· O Brasil precisa de crescimento, mas não cresce porque os juros inibem o investimento produtivo.
· Precisa de juros baixos, mas não pode baixá-los porque a política fiscal expansionista pressiona a inflação.
· Precisa de investimento estrangeiro, mas o que atrai não é capital de longo prazo para plantar fábricas, mas sim capital financeiro que entra hoje e sai amanhã.
O resultado é uma Bolsa em festa e um país atolado na mesmice. O PIB anda de lado, a produtividade estagna, a indústria encolhe, a infraestrutura envelhece — e o brasileiro médio não sente a tal "economia aquecida" que os números da B3 sugerem.
A história econômica está cheia de exemplos de mercados que subiram sem que os países se desenvolvessem: Argentina nos anos 1990, Grécia pré-crise de 2008, Turquia em vários ciclos. O denominador comum é sempre o mesmo: o capital vai onde é bem tratado, mas só fica onde há projeto de país.
No Brasil de 2026, o capital está sendo bem tratado. O projeto de país, porém, continua sendo uma promessa de campanha.
Sete caminhos para reverter o divórcio entre a economia financeira e a real
Não há bala de prata, mas há um cardápio de políticas que poderiam reverter o divórcio entre a economia financeira e a real. O problema é que quase todas exigem escolhas difíceis — algo que o Brasil tem evitado sistematicamente em favor de remendos eleitorais.
1. Substituir o carry trade por investimento direto estrangeiro (IDE): O capital que entra na B3 comprando ações sai na primeira turbulência. O que entra construindo fábrica, planta logística ou centro de pesquisa fica. O Brasil precisa de uma política agressiva de atração de IDE com condicionalidades: incentivo fiscal para quem investe em P&D, infraestrutura e inovação, não para quem compra ações e faz hedge. O Chile fez isso nos anos 2000 e quadruplicou o IDE per capita.
2. Reforma tributária que vá além do consumo: A reforma em andamento é importante, mas insuficiente. O Brasil precisa simplificar também o IRPJ, reduzir a cumulatividade e eliminar subsídios e regimes especiais que distorcem a alocação de capital. Hoje, setores financeiro e de commodities são superfavorecidos; indústria de transformação e serviços de alto valor agregado, não.
3. Política industrial moderna, não protecionista: A era dos subsídios setoriais sem contrapartida acabou. O que funciona é estimular clusters de inovação com condicionalidades claras: investimento em P&D, patentes, exportação de alta tecnologia. O Brasil tem potencial em energia renovável, agrotech, saúde e defesa — mas falta uma estratégia coordenada entre ministérios, BNDES e setor privado.
4. Educação que prepare para o século XXI, não para o Enem: O gargalo mais profundo é a produtividade do trabalho. Enquanto Coreia do Sul, Chile e Vietnã avançam na formação técnico-científica, o Brasil patina com um ensino médio que não prepara para o mercado e um ensino superior que forma mais advogados e administradores do que engenheiros e cientistas de dados.
5. Infraestrutura logística e energética como eixo do plano de desenvolvimento: O Brasil tem um dos custos logísticos mais altos do mundo. O novo PAC existe no papel, mas falta execução, modelagem de concessões e previsibilidade regulatória. Energia limpa e barata é o maior ativo competitivo do país — mas transmissão e distribuição são gargalos reais.
6. Regras fiscais críveis e previsibilidade: Nenhuma política de desenvolvimento funciona sem um ambiente macroeconômico estável. O arcabouço fiscal em vigor é frágil e cheio de válvulas de escape. Sem credibilidade fiscal, o BC não terá espaço para baixar juros de forma sustentável — e sem juros baixos, o investimento produtivo continuará sendo engolido pelo financeiro.
7. Integração competitiva ao comércio global: O Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo (relação comércio/PIB de cerca de 30%, contra 60%+ da média global). Acordos como Mercosul-União Europeia, OCDE e parcerias com Ásia e África são fundamentais para expor a indústria nacional à concorrência e estimular ganhos de produtividade. Protecionismo só protege a ineficiência.
Por que nada disso acontece?
Porque todas essas políticas têm custos políticos de curto prazo — reforma trabalhista, corte de privilégios fiscais, ajuste fiscal, exposição à concorrência externa — e benefícios de longo prazo. Exatamente o oposto do ciclo eleitoral.
O governo Lula, em ano de reeleição, prefere turbinar gastos sociais e isentar IR a enfrentar o sistema tributário. A oposição prefere explorar a insatisfação a propor reformas concretas.
O paradoxo final
O Brasil tem hoje uma janela de oportunidade que poucos emergentes têm — fluxo recorde de capital estrangeiro, Bolsa em máximas históricas, dólar comportado. É exatamente o momento certo para fazer reformas estruturais, porque há colchão fiscal e confiança do mercado. Mas é também o momento em que o governo é o que menos quer fazê-las, porque a popularidade eleitoral fala mais alto.
Argentina desperdiçou sua janela nos anos 1990. Grécia desperdiçou a dela nos anos 2000. A Turquia está desperdiçando a sua agora.
O Brasil de 2026 caminha para se juntar a esse clube — a menos que alguém, em algum lugar, pause a campanha eleitoral e pense no país que vai sobrar depois da festa.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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