Paulo Moreira
"Apesar de você"
As canções de Chico Buarque de Hollanda
"Apesar de você"
Por Paulo Moreira
As canções de Chico Buarque de Hollanda marcaram de modo indelével a minha geração. "Apesar de você" mostra o sentimento de quem vê a queda da ditadura, mas, profeticamente, foi composta com os militares ainda no poder: "Roda viva" ilustra a sensação de falta de sentido de uma luta que não se acaba, enquanto "Sinal fechado" mostra como os afetos se perdem no cotidiano.
Mas o assunto deste texto é uma canção em que o eu lírico de Chico Buarque se mostra humano, sofrido e até cruel: "Trocando em miúdos".
O eu lírico está passando pelo fim de um relacionamento. Ele começa dividindo bens, como a "medida do Bonfim", amuleto em que ele perdeu a fé e não lhe é mais útil.
Faz questão de ficar com o disco do Pixinguinha, talvez para afogar as mágoas ouvindo "Carinhoso"...
Deixa para trás as marcas físicas do amor que acabou, consciente de que vai levar as cicatrizes emocionais.
Demonstra um certo orgulho aí dizer que "não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar". Não que não vá chorar. Ela só não vai ver...
Mas é cruel, ao propor ironicamente que a amada "aceite uma ajuda do seu futuro amor/pro aluguel". Talvez esteja sinalizando que não pretende pagar pensão.
Também exige seu Neruda de volta, dizendo que a mulher nunca o leu. Será que o amor duraria se ela tivesse lido?
Mas o mais importante é que ele "bate o portão sem fazer alarde". Segue em frente com a identidade, uma saideira e " muita saudade".
Nada de ameaças. Apenas uma tragédia pessoal, sem crime passional. Se um amor precisa acabar, que pelo menos seja assim.




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