Moisés Lauriano de Santana
2026 NÃO SERÁ APENAS UMA ELEIÇÃO:
SERÁ O JULGAMENTO DO FUTURO BRASILEIRO
2026 NÃO SERÁ APENAS UMA ELEIÇÃO:
SERÁ O JULGAMENTO DO FUTURO BRASILEIRO
Por Moisés Laureano de Santana
O Brasil se aproxima de outubro de 2026 carregando mais do que expectativas eleitorais. Carrega feridas abertas, promessas não cumpridas, avanços contestados, uma população cansada da polarização permanente e, ao mesmo tempo, sedenta por respostas concretas. As próximas eleições não serão apenas uma disputa entre nomes, partidos ou ideologias. Elas representarão uma decisão histórica sobre o modelo de país que os brasileiros desejam construir para os próximos anos.
O voto de 04 de outubro de 2026 terá um peso diferente porque o país mudou. O eleitor mudou. O mundo mudou. A política deixou de ocupar apenas os palanques e os programas eleitorais para invadir as redes sociais, os grupos de mensagens, os ambientes de trabalho, as escolas, as igrejas e as mesas de jantar. Hoje, o debate político atravessa a vida cotidiana de maneira intensa, emocional e, muitas vezes, agressiva. Nunca se falou tanto de democracia. Nunca se desconfiou tanto dela.
Ao longo das últimas décadas, o Brasil experimentou ciclos de crescimento, recessões profundas, escândalos de corrupção, crises institucionais, impeachment, radicalização ideológica, transformações tecnológicas e mudanças sociais aceleradas. Em meio a tudo isso, uma verdade permanece: o poder político continua sendo diretamente influenciado pela escolha de cada cidadão nas urnas.
Por isso, a eleição de 2026 não pode ser tratada como espetáculo, torcida organizada ou guerra de narrativas. Ela exige maturidade coletiva.
O país enfrentará desafios gigantescos. A economia ainda convive com desigualdades históricas, inflação sensível para as famílias mais pobres, informalidade no mercado de trabalho e baixa produtividade. A inteligência artificial ameaça substituir profissões inteiras enquanto milhões de brasileiros ainda lutam pelo básico: emprego digno, acesso à educação de qualidade e segurança alimentar. A crise climática já deixou de ser previsão científica para se tornar realidade concreta, com enchentes, secas extremas e tragédias ambientais afetando diretamente cidades brasileiras.
Ao mesmo tempo, o sistema político vive uma crise de confiança. Muitos brasileiros não acreditam mais nos partidos, nas instituições ou nos próprios representantes eleitos. Há uma sensação perigosa de que nada muda, independentemente do resultado das urnas. Esse sentimento, embora compreensível, pode se transformar em um dos maiores riscos para a democracia: a indiferença.
Uma sociedade que perde a esperança na política abre espaço para o extremismo, para soluções autoritárias e para lideranças que se alimentam do medo e do caos. A história demonstra que democracias raramente desaparecem de forma abrupta; muitas vezes, elas se deterioram lentamente quando cidadãos deixam de participar, fiscalizar e questionar o poder.
Em A Paz Perpétua, Immanuel Kant advertia que a liberdade política depende de uma cidadania racional e moralmente comprometida com o espaço público. Para Kant, “o uso público da razão deve ser sempre livre” (Resposta à Pergunta: O que é o Esclarecimento?, 1784, p. 104), pois somente uma sociedade capaz de pensar criticamente consegue resistir ao autoritarismo e preservar a autonomia democrática.
Décadas depois, Jürgen Habermas aprofundou essa reflexão ao afirmar, em Mudança Estrutural da Esfera Pública (2014, p. 89), que a democracia depende da existência de um debate público livre, racional e participativo. Quando cidadãos se afastam da política, a esfera pública se fragiliza e o espaço democrático passa a ser ocupado pela desinformação, pela intolerância e pela manipulação emocional.
O maior risco para uma democracia não é apenas o ataque externo às instituições, mas a indiferença interna de seus próprios cidadãos. Democracias morrem quando a sociedade deixa de acreditar que participar ainda vale a pena.
O voto é muito mais do que um gesto burocrático realizado a cada quatro anos. Ele é uma declaração silenciosa de responsabilidade coletiva. Quando alguém vota sem refletir, vota desinformado ou simplesmente terceiriza sua consciência para influenciadores, líderes religiosos, celebridades ou correntes de internet, está entregando parte do futuro do país nas mãos de terceiros.
E talvez esse seja um dos pontos mais delicados das eleições modernas: a manipulação da percepção pública.
As redes sociais transformaram a política em um território de velocidade emocional. Informações falsas circulam em segundos. Vídeos editados, manchetes distorcidas e discursos inflamados conseguem atingir milhões de pessoas antes mesmo de qualquer verificação. O algoritmo premia o choque, a raiva e o medo. A verdade, muitas vezes, chega atrasada.
Nesse cenário, o eleitor brasileiro enfrenta uma responsabilidade inédita: além de votar, precisa aprender a interpretar informação.
A desinformação não ameaça apenas candidatos. Ela ameaça a própria capacidade da população de tomar decisões conscientes. E uma democracia sem consciência crítica se torna vulnerável.
Por isso, as eleições de 2026 exigirão mais do que preferência política. Exigirão discernimento, vale dizer, será necessário observar propostas reais e não apenas frases de efeito. Analisar histórico público e não somente carisma digital. Questionar promessas impossíveis. Investigar alianças políticas. Entender planos econômicos. Debater educação, saúde, segurança, infraestrutura, meio ambiente, tecnologia, tributação e direitos sociais de maneira séria. O Brasil não pode continuar refém de campanhas vazias sustentadas por marketing emocional.
Existe ainda outro aspecto fundamental: a juventude. Os jovens brasileiros terão papel decisivo em 2026. Uma geração inteira cresceu conectada, hiperestimulada por conteúdos rápidos e exposta a crises constantes. Muitos enxergam a política com descrença. Outros a enxergam com radicalismo absoluto. Poucos foram ensinados a enxergar a política como instrumento técnico de transformação social. Entretanto, são justamente os jovens que herdarão as consequências das decisões tomadas agora. Serão eles que enfrentarão os impactos econômicos da dívida pública, os efeitos ambientais das políticas atuais, os desafios da automação no mercado de trabalho e as mudanças culturais provocadas pela revolução tecnológica. Ignorar a política hoje significa aceitar que outros decidam o amanhã.
Ao mesmo tempo, as eleições de 2026 também colocarão em debate o próprio funcionamento das instituições brasileiras. Questões relacionadas à liberdade de expressão, combate à desinformação, independência dos Poderes, segurança jurídica, transparência pública e equilíbrio democrático estarão no centro das discussões.
Isso porque o Brasil vive uma tensão permanente entre liberdade e responsabilidade. De um lado, existe o direito legítimo à crítica e à manifestação. Do outro, cresce a preocupação com discursos de ódio, ataques institucionais e manipulação digital em massa. Encontrar equilíbrio entre esses princípios será um dos maiores desafios políticos e jurídicos dos próximos anos.
Ademais, o eleitor precisará compreender que política não se resume ao presidente da República. Governadores, senadores, deputados federais e estaduais possuem influência direta sobre impostos, investimentos, leis, segurança pública, educação e orçamento. Muitas vezes, a população concentra toda atenção na disputa presidencial e ignora cargos que impactam profundamente a vida cotidiana. Democracia exige participação completa, não parcial.
Outro ponto decisivo será a capacidade da sociedade brasileira de reconstruir pontes de diálogo. O ambiente político atual transformou divergência em inimizade. Famílias se afastaram. Amizades terminaram. O debate público se tornou tóxico. Discordar passou a ser interpretado como ameaça moral. Nenhuma democracia saudável sobrevive sem convivência entre diferenças. O Brasil precisa urgentemente reaprender a debater sem destruir. Questionar sem odiar. Defender ideias sem desumanizar pessoas. A maturidade democrática não nasce da unanimidade, mas da capacidade de coexistência. E talvez essa seja a grande pergunta de 2026: o país continuará alimentando divisões ou encontrará maturidade para construir consensos mínimos?
As próximas eleições definirão prioridades econômicas, estratégias de segurança, investimentos sociais, relações internacionais, políticas ambientais e rumos institucionais. Porém, acima de tudo, definirão o tipo de sociedade que o Brasil deseja ser. Uma sociedade movida pelo medo ou pela esperança.
Pela manipulação ou pela consciência. Pela passividade ou pela participação. Nenhum candidato salvará sozinho o país. Nenhum partido resolverá problemas históricos de maneira mágica. Democracias sólidas não dependem apenas de líderes fortes. Dependem de cidadãos atentos.
O futuro brasileiro não será decidido apenas nos debates televisivos, nas propagandas eleitorais ou nas redes sociais. Ele será decidido na consciência silenciosa de milhões de eleitores diante da urna eletrônica. E é exatamente aí que mora a grande responsabilidade. Cada voto carrega consequências econômicas, sociais, jurídicas e humanas. Cada escolha influencia políticas públicas, prioridades orçamentárias e decisões que afetam diretamente hospitais, escolas, empregos, segurança e oportunidades.
Por isso, a eleição de 2026 não pede apenas participação. Exige coragem. Coragem para estudar antes de votar.
Coragem para ouvir opiniões diferentes. Coragem para abandonar fanatismos.
Coragem para cobrar coerência. Coragem para não vender consciência em troca de promessas fáceis. Coragem para entender que democracia não é torcida, é responsabilidade coletiva.
O Brasil chegará às urnas em 2026 diante de um espelho histórico. E aquilo que a população escolher dirá muito mais do que uma preferência política. Dirá quais valores a sociedade decidiu priorizar.
No fim, a pergunta mais importante não será “quem venceu a eleição?”. A verdadeira pergunta será: Que país nós ajudamos a construir com o nosso voto? Porque o futuro do Brasil não começa depois das eleições. Ele começa exatamente no momento em que cada cidadão decide se será apenas espectador da história ou protagonista consciente dela.
Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais




COMENTÁRIOS