Carmem Teresa Elias
Por Uma Leitura para contestar
Um mestre absoluto em brincar com as palavras, sonoridades, polissemias.
Carmem e o lvro Por Uma Leitura para contestar
Chego ao desfecho da leitura do livro “Desmentir”, poemas, de Antônio Carlos Secchin, imbuída do mesmo sentimento declarado pelo autor ao fim do recital de lançamento da obra na Academia Brasileira de Letras: “em tempos de escuridão, precisamos ler o que nos traga um sorriso e nos faça ter alguma esperança”.
Secchin é mestre absoluto em brincar com as palavras, sonoridades, polissemias. O poeta desmente e me conduz a jogar também com as sílabas e significados. Quem desmente, por um lado, se opõe à mentira, torce-a ao re-verso rumo à verdade, nega o que foi dito ou escrito por intenção de enganar. Em tempo de tanta mentira, fakenews, escritos por IA, Secchin nos lembra que existe um mundo real e verdadeiro. Por outro lado, ocorre-me um outro jogo de palavras e chego à interpretação pessoal que o que des-mente de certa forma desliga a mente. Explico: a poesia foge ao logos, à literalidade, ao concreto maçante. A poesia acessa, não raro, a negação da lógica linguística e estereótipos de uso, alcançando os deslimites da mente. Um poema enreda-se pelo mundo da fantasia, do fantástico, do sonho, da imaginação e suas armadilhas. Nesse entendimento, seria uma mentira? De repente vi-me assolada por Fernando Pessoa e seu poeta fingidor.
Fugindo dos espectros e delírios de leitor e de volta ao livro, concluo que “Desmentir” nos propicia momentos brindes entre o humor e a seriedade.
Em seus versos encontramos sol em copo d’água, um molhar-de de luz, um canto ao silêncio. Seu Brinde é um fruto ao deleite do leitor.
Reencontramos -nos logo adiante com Drummond com “mãos que tecem o rude trabalho” e o “brilho cintilante negro da sombra”. Um asterismo! Entra Camões em cena e me declara: “Carmem, somos amantes dos paradoxos; por isso somos poetas”. Concordo. Afinal o mundo pesa. Escavar o mundo de um poema é sentir o peso do mundo em um seixo.
Nessa “mineração”, Secchin também escava o papel como quem arranca raízes da alma no paradoxo de não haver frase oculta que se possa procurar. A imagística é recurso celebre: uma prosa brinca colorida entre azul e rosa. São palavras úmidas: quem ousa desmentir?
Destaco o poema “Retrato a correr, de corpo inteiro”. O poeta escreve: “pediria…que primeiro você visse/ lá no alto da cabeça/ uma faixa colorida/ de um certo azul turquesa”. Fecho os olhos antes de seguir pelos versos. Imagino uma visão celestial, um céu azul inteiro livre e puro como aura divina. Porém o poeta desmente minha ilusão. Trata-se apenas de “um pano de toalha de mesa”… “com névoa de leveza.”
Nesse reino de leveza, Secchin nos convida ao humor dos vexames que os corretores ortográficos nos fazem pela “vida num vale de látex”. Haja borracha para apagar a correção automática, esse programa mentiroso que tanto temos de desmentir. Ah, e como não sentir o mar no meio de um ca-mar-ão? Ao desfecho, Secchin nos traz um abecebicho de trocadilhos. Afinal, queridos leitores, o Que faria uma zebra ser desigual? Deixo-lhes na curiosidade e no desmentir.
Carmem Teresa Elias




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