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Barra Mansa,05/05/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O Gado e os Donos do Pasto:

    A Profecia Amarga de Darcy Ribeiro


    O Gado e os Donos do Pasto:

    O Gado e os Donos do Pasto:

    A Profecia Amarga de Darcy Ribeiro

    " O maior e único problema do Brasil são suas elites - apátridas, parasitárias, vivem de vender o patrimônio nacional e manter o povo escravizado, ignorante feito gado." (Darcy Ribeiro)

    Por Marcelo Kieling

    Nesta crônica, tento analisar a crítica de Darcy Ribeiro às elites brasileiras, explorando os conceitos de "apátrida" e "parasitária" como definidores de uma classe dominante sem projeto nacional. Destaco a manutenção da ignorância popular como uma estratégia deliberada de poder político e concluo que a superação desse modelo exige a transformação da atual estrutura educacional e soberana do país.

    A frase de Darcy Ribeiro nunca envelhece; ela cicatriza mal. Quando o antropólogo vaticinou que o problema central do Brasil reside em suas elites — rotulando-as como apátridas e parasitárias —, ele não estava apenas lançando um libelo político, mas apresentando o desenho da anatomia de uma hereditária ferida colonial que insiste em não fechar. Para Darcy, o Brasil não é um projeto que deu errado; é um projeto que deu exatamente o que se pretendia: uma espúria máquina da elite para moer gente a fim de sustentar o luxo de poucos.

    Essa elite, que Darcy descreve com o rigor de quem conhece as entranhas da formação do povo brasileiro, carrega um pecado original: a absoluta falta de pertencimento. É uma classe dominante que habita o território, mas nunca a nação. Vive com os olhos em Miami ou Paris, enquanto as mãos operam o diário leilão do patrimônio nacional. O conceito de "apátrida" é cirúrgico, pois não se trata de falta de passaporte, mas de falta de destino comum. Para o conservador baronato hereditário brasileiro, o Brasil é uma fazenda extrativista, um ativo a ser liquidado, nunca uma pátria a ser construída ou desenvolvida em sociedade pública.

    O parasitismo mencionado por Darcy manifesta-se na total incapacidade histórica dessas elites de gerar um projeto de desenvolvimento soberano. Preferem o rentismo à inovação; o juro alto ao pleno emprego; a exportação de soja e minério à inteligência tecnológica. É a lógica do "vender o patrimônio": privatiza-se o lucro para socializar o prejuízo e entregar a soberania à política corrupta em troca de uma lastimável estabilidade efêmera que só beneficia o andar de cima.

    Mas a parte mais cruel da sentença de Darcy é a manutenção do povo na ignorância, "feito gado". Aqui, a metáfora do curral se encontra com a pura realidade das nossas salas de aula e dos algoritmos. A ignorância não é um subproduto da pobreza; é uma ferramenta de gestão. Manter o povo escravizado — hoje não mais por correntes de ferro, mas pelo endividamento, pela precarização do trabalho e pelo deserto educacional — é a garantia de que a estrutura não será abalada. É o cenário de um povo que abandona os livros em troca de memes e reels da famigerada doença social chamada rede social; um povo que não conhece sua história, que não entende os mecanismos de sua própria opressão e que aceita o berrante como música.

    Darcy Ribeiro viveu e morreu com sua paixão indomável pela educação. Ele sabia que o único antídoto para essa "domesticação" era a escola de tempo integral, o CIEP, a cultura como arma. Entendia que a elite teme o livro mais do que a bala, pois o livro ensina o "gado" a saltar a cerca e se livrar da escravidão que o atormenta.

    Hoje, ao olharmos para o cenário brasileiro, a profecia de Darcy ecoa firmemente nos discursos que atacam a ciência, que sucateiam o ensino público e que tratam o patrimônio ambiental e estatal como estorvo. A elite reacionária e parasitária continua lá, trocando apenas o linho pelo terno de corte internacional, mas mantendo o mesmo desprezo pelo homem comum que caminha diariamente sob o sol das ruas.

    Refletir sobre Darcy Ribeiro é, portanto, um excepcional exercício da indignação necessária. Se o problema são as elites, a solução só deve e pode vir da base social. Enquanto o Brasil for visto pela elite — que se entende como "dona hereditária" — apenas como um negócio, e não como uma sociedade, continuaremos a ser o país do futuro que nunca chegará, presos em um presente de servidão disfarçada de progresso. É preciso, como queria Darcy, transformar o gado em cidadão, para que o pasto finalmente se torne pátria, uma nação, um país de verdade.

    Precisamos mudar o Brasil. Vamos?

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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