MK - Marcelo Kieling
O Brasil vive um paradoxo cruel.
Educar é necesário e urgente.
O Brasil vive um paradoxo cruel.
Educar é necesário e urgente.
Por Marcelo Kieling
Este meu relato sobre a formação no Colégio Pedro II, durante as décadas de 1970 e 1980, não é apenas um exercício de nostalgia; é a exposição de um contraste sociológico profundo entre um modelo de Estado Educador e o atual Estado Assistencialista-Burocrático. A transição do "Ginásio e Científico" para o modelo contemporâneo revela uma clivagem geracional e institucional onde a disciplina foi substituída pela concessão, e o mérito, pela estatística de fluxo.
Nunca se falou tanto em "inclusão educacional" e nunca se entregou um ensino tão desprovido de ferramentas de emancipação. Tive a felicidade de ter vivido minha formação no ginásio e científico no Colégio Pedro II em seus tempos áureos — com redações diárias e exames rigorosos —, o que soa hoje como uma crônica de um país que se perdeu no caminho.
A substituição do mérito acadêmico pela aprovação automática é, em última análise, um ato de elitismo disfarçado de progressismo. Ao desobrigar o aluno da escola pública do esforço hercúleo da leitura mensal e da escrita constante, o Estado brasileiro retira dele a única chance de ascensão real. Enquanto as elites privadas mantêm o rigor em seus enclaves, a escola pública é transformada em um depósito de estatísticas para satisfazer organismos internacionais.
A educação era um rito de passagem rigoroso para o nosso futuro. A autoridade do professor era absoluta, ancorada na esfera pública como espaço de excelência. O rigor (redações diárias, leitura obrigatória) funcionava como um mecanismo de mobilidade social real: o diploma do Pedro II era um ativo de capital cultural indiscutível.
A tristeza de observar o "absoluto abandono" não é apenas sentimental; é resultado de uma política equivocada. A falta de concursos públicos e a distorção das pautas pedagógicas transformaram o ambiente escolar em um espaço de baixa expectativa. Sem cobrança, não há crescimento; sem rigor, o diploma torna-se um pedaço de papel sem qualquer motivação profissional.
A política pública é falha ao focar apenas no cumprimento de metas do IDEB e na redução de evasão. A introdução da educação inclusiva, sem a exclusão por nota, não traz resultados efetivos se desacompanhada de qualidade. As corporações de docentes reclamam das condições de trabalho e da falta de recursos, enquanto a precarização avança sem uma avaliação de desempenho eficaz.
A entrada de estudantes ao ensino superior via cotas e PROUNI transforma o diploma em um direito que, por vezes, ignora o esforço prévio necessário. Assim, a sociedade civil e os empreendedores incorporam uma mão de obra mal formada e despreparada. O sistema faliu: ele não garante o emprego, nem a compreensão do mundo.
O desafio atual não é apenas colocar o jovem na universidade, mas garantir que ele chegue lá com a mesma "devoção ao saber" que caracterizou as gerações passadas — fato que entendo como quase utópico, mas que é preciso trazer à tona. Apesar da importância do avanço digital, a "virose" das redes sociais causa um desinteresse nos estudos, trocados por memes e reels. Caso contrário, continuaremos a produzir uma massa de graduados que detém o título, mas permanece basicamente órfã do conhecimento.
Vivemos a desconstrução da autoridade docente. A "devoção aos professores" foi substituída por uma relação de consumo ou, em áreas vulneráveis, por uma relação de medo, onde até a agressão física faz parte da rotina. Sem respaldo institucional para cobrar tarefas e comportamento, o professor perdeu a função de mestre e tornou-se um monitor de sala, um "escravo" do sistema.
Com a adoção do estelionato da aprovação automática, o Estado mascara a falência do ensino ao eliminar a reprovação. O resultado é o evidente analfabetismo funcional em nível universitário. A política pública foca na "entrada", o que é válido, mas ignora a "base", criando um teto de vidro para os filhos da classe trabalhadora.
A falta de concursos para as escolas públicas impede a criação de uma cultura escolar sólida, como a que existia nos meus tempos de Pedro II, onde o pertencimento à instituição moldava o caráter do aluno.
Nestes tempos de política descompromissada com o interesse público, a educação serve como um serviço de baixa intensidade. A prioridade deslocou-se do aprendizado para os índices de aprovação. A "aprovação automática" e a flexibilização curricular, embora vendidas como inclusivas, aprofundam a desigualdade, pois retiram do aluno da escola pública a única ferramenta de competição real com o ensino privado: a densidade do conhecimento.
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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