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Barra Mansa,21/04/2026

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    Carlo Simi

    RIO DE JANEIRO

    A VITRINE QUE ESCONDE UM COLAPSO ESTRUTURAL


    RIO DE JANEIRO Mapa do Rio de Janeiro

    RIO DE JANEIRO: A VITRINE QUE ESCONDE UM COLAPSO ESTRUTURAL

    O debate sobre a crise do estado do Rio de Janeiro costuma oscilar entre diagnósticos superficiais e soluções imediatistas. Mas há um ponto que precisa ser encarado com mais honestidade: trata-se de um problema estrutural, acumulado ao longo de décadas de gestões marcadas por incompetência administrativa, abuso de poder político, corrupção sistêmica e, de forma cada vez mais evidente, pela infiltração do crime organizado nas estruturas do Estado.

    Embora o interior também venha sendo progressivamente afetado, é a capital — o Rio de Janeiro — que concentra de maneira mais intensa essa contradição. É ali que convivem, lado a lado, a projeção internacional de uma cidade vibrante e a deterioração silenciosa de suas instituições.

    O histórico recente do estado ajuda a entender esse cenário.

    O Rio acumula anos de instabilidade política, investigações, cassações e escândalos que impedem qualquer continuidade administrativa. Em março deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral declarou a cassação do diploma do ex-governador Cláudio Castro, tornando-o inelegível por oito anos, ao reconhecer abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O episódio não é isolado — ele reforça a percepção de um sistema político incapaz de se estabilizar e de produzir governabilidade consistente.

    Esse quadro contrasta diretamente com a força econômica e simbólica da capital.

    Em 2025, a cidade recebeu 12,5 milhões de visitantes, gerando um impacto de R$ 27,2 bilhões na economia. Desse total, 2,1 milhões foram turistas estrangeiros, um crescimento expressivo de 44,8% em relação ao ano anterior.

    O Rio continua sendo uma vitrine global.

    Mas é justamente essa vitrine que escancara o paradoxo: há uma cidade que prospera na superfície enquanto enfrenta enormes dificuldades para garantir o básico — ordem institucional, autoridade pública e presença efetiva do Estado em seu território.

    A ocupação de áreas por facções criminosas e milícias deixou de ser um fenômeno periférico.

    Hoje, ela interfere diretamente na dinâmica política, institucional e econômica do estado. Não se trata apenas de segurança pública.

    Trata-se da capacidade do Estado de arrecadar, regular, fiscalizar, prestar serviços e garantir direitos sem a intermediação de poderes armados.

    O resultado é a formação de um “outro Rio”, menos visível para quem visita e profundamente presente para quem vive. Um cotidiano atravessado por redes de influência ilegal, corrupção política e medo constante.

    A conexão entre crime organizado e política, nesse contexto, não pode mais ser tratada como exceção. O assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes tornou-se um marco simbólico dessa degradação institucional. Em fevereiro, o Supremo Tribunal Federal condenou os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão a mais de 76 anos de prisão pelo crime, expondo, mais uma vez, a profundidade das conexões entre agentes públicos e estruturas criminosas.

    E os sinais continuam se acumulando. Investigações recentes da Polícia Federal apontam possíveis ligações entre parlamentares, integrantes da administração estadual e o tráfico de drogas. Quando essas relações avançam, o problema deixa de ser apenas criminal e passa a comprometer a própria legitimidade do sistema político.

    Os impactos econômicos são igualmente expressivos. Um estudo da Confederação Nacional do Comércio estima que os crimes violentos geram perdas anuais entre R$ 10,76 bilhões e R$ 11,48 bilhões à economia fluminense — cerca de 0,9% do PIB estadual. Em termos internacionais, isso representa algo próximo de US$ 2 bilhões por ano. A violência, portanto, deixou de ser apenas uma tragédia social: tornou-se um obstáculo direto ao desenvolvimento.

    Há ainda um efeito menos visível, mas igualmente grave: a distorção do próprio processo democrático. Em regiões sob influência direta de grupos criminosos — muitas vezes com a conivência ou omissão de setores do Estado —, a competição eleitoral ocorre em condições profundamente desiguais. O problema deixa de ser apenas administrativo e passa a ser de legitimidade.

    Quando o Estado perde espaço para poderes paralelos, eleições, mandatos e políticas públicas passam a operar sob pressão, sob influência e, em muitos casos, sob ameaça.

    Ao final, o Rio de Janeiro permanece como uma das principais vitrines do Brasil. Uma cidade capaz de atrair milhões, movimentar bilhões e projetar uma imagem sedutora para o mundo. Mas, por trás dessa superfície, persiste um estado fragilizado, atravessado por milícias, facções, corrupção e perda de autoridade institucional.

    A beleza continua aqui, porque é natural.

    Os problemas, no entanto, só aumentam.

    Carlo Simi é Matemático, Professor, Servidor Público, Sócio Proprietário e Torcedor do Fluminense, Frequentador dos jogos e do clube desde a década de 50, Ex-Conselheiro, Membro do Grupo Por Amor ao Tricolor e Membro da Embaixada Tricolores da Zona Sul.



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