Marcelo Kieling
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Não ouve, não fala, não participa
O Analfabeto Político
Era uma tarde abafada de domingo em uma praça no subúrbio carioca, recheada de crianças e cachorros, onde o sol escaldante derretia o asfalto e as conversas fluíam como o suor pela testa dos presentes. Sentado em um banco de cimento rachado, Seu Zé, um aposentado de 68 anos com mãos calejadas de anos na construção civil, gesticulava furioso para o grupo de amigos ao redor. "Olha o preço do feijão, rapaziada! Tá 12 reais o quilo! E o remédio pra minha pressão? Uma fortuna! Política que se dane, eu odeio esses safados todos!" Seu Zé estufava o peito, orgulhoso de sua aversão declarada, como se aquilo fosse uma medalha de honra. Os outros assentiam, rindo da própria revolta, sem notar que, ali mesmo, Bertolt Brecht, “o genial influente dramaturgo, poeta e encenador alemão, criador do teatro épico; marxista, usou sua obra para criticar o capitalismo e o fascismo”; os definia com precisão cirúrgica: o pior analfabeto é o analfabeto político.
Não ouve, não fala, não participa. Seu Zé, como tantos outros, ignora que o custo de vida não cai do céu, mas é tecida por decisões em gabinetes distantes, onde leis são aprovadas ou vetadas, orçamentos são realocados e desviados em alianças costuradas às escondidas. O feijão caro não é castigo divino; é fruto de políticas agrícolas que privilegiam exportações em detrimento do mercado interno, de câmbios manipulados por bancos centrais e de cadeias logísticas sufocadas por impostos e burocracia. O aluguel inflacionado? Decorre de planos habitacionais engavetados, de especulação imobiliária blindada por leis frouxas. E o sapato, o peixe, a farinha? Todos eles dançam ao ritmo de negociações internacionais, subsídios seletivos e, sim, da ganância de lobbies que compram favores com propinas disfarçadas de doações eleitorais. Seu Zé odeia a política porque ela o fere no bolso, mas se recusa a enxergá-la como a raiz de sua dor cotidiana.
Essa ignorância não é mera distração; é um veneno emocional que corrói a vida diária e a alma coletiva. Sinto uma tristeza profunda ao observá-la, uma melancolia que aperta o peito com o ar ácido e úmido de bairros, comunidades e favelas sem saneamento, atendimento à saúde e absoluta falta de segurança. É o desamparo de quem, exausto após 40 anos de labuta, vê sua aposentadoria virar migalhas e culpa o destino, não os que moldam o destino alheio. Há raiva nisso também, uma fúria surda que explode em brigas de bar ou em posts raivosos nas redes, mal intencionados, alimentados por um ódio inexplicável, mas sem qualquer direção, sem alvos precisos. O analfabeto político se orgulha de sua burrice, como Seu Zé estufando o peito, porque é mais fácil do que admitir vulnerabilidade. Admitir que sua indiferença alimenta o ciclo vicioso: a prostituta nas esquinas, o menor abandonado nas ruas, o assaltante que assombra as manhãs, tardes e noites. E, pior, os políticos vigaristas, aqueles lacaios das multinacionais, desviam bilhões enquanto infelizmente, seu Zé e um povo desinteressado debate o preço do pão.
Penso em minha própria trajetória, como jornalista que viu de perto os bastidores dessa tragédia. Cobri e pude esclarecer as denúncias falsas sobre escândalos no BNDES, onde fake news e matérias jornalísticas tendenciosas acusavam o banco de projetos bilionários que haviam evaporado em superfaturamentos; acompanhei o IBGE mapeando desigualdades que políticas populistas só mascaram. Em Teresópolis, como Secretário de Planejamento, tenteo lutar contra a máquina inercial que transforma boas intenções em poeira. Cada vez, o obstáculo maior não era a falta de recursos, mas a apatia popular. O povo que elege salvadores da pátria com promessas vazias e depois os xinga como traidores, sem nunca questionar o próprio papel. É uma traição emocional à si mesmo: a ilusão de neutralidade que, na verdade, é cumplicidade.
Mas permitam-me um contraponto, pois o rigor jornalístico exige equilíbrio, mesmo na crônica. Nem todo político é pilantra; há os que, contra ventos e marés, constroem. Penso em prefeitos anônimos que pavimentam ruas com verbas mal-humoradas do governo federal, em vereadores que fiscalizam obras apesar das ameaças. A política não é monstro absoluto; é ferramenta cega nas mãos de quem a empunha. O erro do analfabeto político não está em odiar os corruptos – isso é saudável –, mas em odiar a política como um todo, jogando fora o bebê com a água suja. Sua ignorância não pune os vigaristas; os elege, porque o voto em branco ou o protesto nas urnas é o oxigênio dos eternos reeleitos.
Emocionalmente, isso me revolta, me angustia e, ao mesmo tempo, me comove. Revolta porque vejo o potencial desperdiçado: imagine Seu Zé, com sua sabedoria de rua, pressionando vereadores em audiências públicas, exigindo transparência nos contratos de merenda escolar. Comove porque entendo o cansaço – o Brasil é um país de decepções cíclicas, onde Lava Jato vira uma piada e as reformas prometidas viram fumaça. A análise emocional revela camadas: há medo, o medo paralisante de se envolver e ser traído novamente; há vergonha, de admitir que não lê jornais ou entende emendas parlamentares; há resignação, cultivada por gerações de autoritarismos disfarçados de democracia. Falta educação política.
Voltemos à praça. Seu Zé termina sua tirada e pede outra cerveja gelada, alheio ao fato de que o preço dela subiu 20% por causa de impostos sobre combustíveis, decididos em Brasília. Seus amigos riem, mas nos olhos de um deles, um jovem de 25 anos com tatuagens e smartphone na mão, há uma faísca de dúvida. Talvez ele busque no Google "por que o feijão tá caro" e encontre o caminho de Brecht. Talvez ele perceba que participar não é militância barulhenta, mas vigilância cotidiana: votar informado, cobrar prestações de contas, unir-se a associações de bairro.
O analfabeto político não é irrecuperável; é vítima de um sistema que lucra com sua mudez. Para curá-lo, precisamos de educação cívica que comece na base – não com cartilhas chatas, mas com histórias reais, como a de um feijão que viaja de Mato Grosso ao Rio custando o dobro por decisões erradas. Precisamos de jornalismo que humanize a política, mostrando não só os escândalos, mas as vitórias pequenas, como a escola construída apesar dos desvios e apresente sugestões que possam gerar produtividade, seriedade e possibilidade de execução de projetos políticos fundamentados em ética e verdade.
No fecho dessa reflexão, imagino Seu Zé lendo esta crônica em um jornal amassado na banca da esquina. Ele franze a testa, resmunga "bobagem", mas algo mexe dentro dele – uma semente de inconformismo. O peito que se estufa em orgulho tolo agora pulsa com possibilidade. Porque o antídoto à ignorância não é ódio, mas consciência. E a consciência, uma vez despertada, não se cala mais. Ela transforma o analfabeto em cidadão, o reclamante em agente de mudança. E aí, sim, o preço do feijão talvez baixe – não por milagre, mas por pressão coletiva, por política viva nas veias do povo.
Podemos ajudar a mudar este cenário desastroso da política brasileira. Vamos?
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