Marcelo Kieling
Paulo Rabello de Castro
Um gênio da economia
Nesta coluna, apresento uma entrevista com Paulo Rabello de Castro.
Um gênio da economia e um profundo conhecedor da geopolítica do Brasil e das suas relações internacionais.
Tive a honra e o prazer de participar das gestões de Paulo Rabello de Castro no IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e no BNDES - Banco Nacional do Desenvolvimento Social, onde respondi pelas áreas de Comunicação Social e Marketing das instituições.
Paulo Rabello de Castro graduou em 1971 em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, onde cursou com os professores Milton Friedman, Gary Becker e Theodore Schultz, todos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia.
Membro e presidente de 1994 a 1996 da Academia Internacional de Direito e Economia (AIDE), foi professor titular no Curso de Doutorado da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), nas cadeiras de Economia Agrícola, Economia Regional e Urbana e Economia da Informação; criador e coordenador do Grupo de Informação Agrícola no Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da FGV; criador e editor da revista especializada Agroanalysis; redator-chefe da revista Conjuntura Econômica da FGV encarregada, até os anos 1980, de publicar nacionalmente as Contas Nacionais e os Índices Nacionais de Preços.
Fundou em 1993 a SR Rating, primeira empresa especializada em rating no Brasil. Ocupou cargos de gestão na ARC Ratings, RC Consultores, Macroconsulting, entre outras, além de participação em entidades profissionais. Integrou o Comitê de Gestão do Grupo de Líderes Empresariais – Lide, foi conselheiro do Conselho de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e exerceu a presidência do Conselho de Planejamento Estratégico da FECOMERCIO/SP.
Ex-presidente do Instituto Atlântico, entidade sem fins lucrativos, formuladora de políticas públicas, fundada em 1993, e fundador da ONG Instituto Maria Stella, que já formou mais de dois mil alunos carentes na iniciação à informática como ferramenta de estudo e trabalho no Mato Grosso. Coordenou o Movimento Brasil Eficiente, que propõe uma simplificação da carga tributária e mais eficiência dos gastos públicos.
Contribuiu para diversas mídias, como colunista e comentarista, entre as quais o Folha de S.Paulo, Época, Jovem Pan e blogues de opinião. É autor dos livros Lanterna na Proa (2017) que reúne artigos em ocasião do centenário de Roberto Campos; O Mito do Governo Grátis: o mal das políticas econômicas ilusórias e as lições de 13 países para o Brasil mudar (2014); Galo Cantou! A conquista da propriedade pelos moradores do Cantagalo (2011), vencedor do Prêmio Jabuti 2012, na categoria de arquitetura e urbanismo; Panorama fiscal no Brasil, Proposta de ação (2010); A crise financeira internacional (2009); A grande bolha de Wall Street (2008) e Tributos no Brasil: auge, declínio e reforma (2008).
Governo Temer
Presidente do IBGE entre julho de 2016 e junho de 2017, sua gestão promoveu a renovação do parque tecnológico da instituição e viabilizou o Censo Agropecuário, que não era realizado desde 2006. Deixou o IBGE para assumir a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES.
Candidatura à presidência
Deixou o BNDES em abril de 2018, para assumir pré-candidatura à presidência pelo PSC. Ele chegou a ser lançado candidato pelo partido em convenção no final de julho, prometendo enxugar a máquina pública e acabar com o déficit primário em 2019. Poucos dias depois, em 1º de agosto, retirou sua candidatura e foi indicado a vice na chapa do Álvaro Dias, do Podemos. Em 13 de agosto de 2018, em meio à campanha, recebeu o prêmio "Economista do Ano de 2018" da Ordem dos Economistas do Brasil.
ENTREVISTA DE PAULO RABELLO DE CASTRO
1. O Brasil vive um momento de reconfiguração partidária com o fim do mandato de Lula e a ascensão de novas lideranças. Como você avalia a capacidade dos partidos tradicionais de se reinventarem diante do desgaste das legendas históricas e do crescimento de candidaturas outsider?
No fundo, tua pergunta é: "O Brasil político vai produzir uma virada que nos traga um novo ciclo de prosperidade?" A resposta é: Sim e Não. Por que? Sim, porque a janela está aberta pelo fim do ciclo de prevalência do PT - a próxima aposentadoria de Lula no fim deste ano e a carência de qualquer nome de destaque nas esquerdas, já que estas são o campo que mantém o país semiestagnado. E Sim, porque a população não se ilude mais com o sistema de caridades públicas (bolsas, vales, subvenções...) criadas a partir da Constituição de 1988. A população percebe com mais clareza a necessidade de tentar um novo modo de ser na sociedade, mais baseado em incentivos e no esforço próprio de cada um. Contudo, a resposta é Não, na medida em que prevaleçam os arraigados interesses encastelados nos Orçamentos públicos e nas leis eleitorais e partidárias, as emendas bilionárias, os fundos partidários e eleitorais, o sistema proporcional de votos e coeficiente eleitoral, a reeleição generalizada, as dinastias politicas regionais. Tudo isso é velho, carcomido, mas muito vivo, e com bilhões pra manter tudo como está. E a estrutura dos demais poderes, no Judiciário e no Executivo, também conspiram em silêncio pra manter tudo como está. Conclusão: a janela de mudança vai ficar aberta até meados de 2027. Caso o novo mandatário nao venha bem equipado e planejado para atropelar com mudanças sistêmicas e de grande impacto, a janela se fechará de novo.
2. O Congresso Nacional consolidou uma bancada conservadora expressiva nos últimos ciclos eleitorais. Na sua análise, isso representa uma mudança estrutural no equilíbrio de forças ou um fenômeno circunstancial que pode ser revertido?
O fenômeno é mundial. O que você chama de conservadorismo é, na maior parte, uma retorno ao princípio liberal de que as estruturas estatais nao podem trepar em cima da iniciativa dos cidadãos, prejudicando empreendedores com taxações sufocantes, nem atropelando valores seculares como família, direito à propriedade, imposto módico, valorização das administrações locais, direito à vida e à segurança individual, familiar, empresarial e patrimonial. Cito apenas alguns valores que agora retornam à pauta das sociedades nacionais e o Brasil vem junto. Por isso o Congresso exibe mais representantes da chamada "direita" . Mas ter bancada, por si só, não produz propostas objetivos nem mudanças duradouras. Só barulho...
3. A economia brasileira enfrenta o desafio de combinar crescimento com inclusão social em um cenário global de incertezas. Quais políticas públicas você considera prioritárias para garantir competitividade sem ampliar desigualdades?
A pergunta precisa ser reformulada porque parte de uma premissa errada, de que o crescimento aumenta desigualdade e a maior inclusão social se alcança com sacrifício do crescimento. Errado. Veja o Brasil das últimas décadas. O assistencialismo avançou. A pobreza absoluta caiu. O quadro de fome também. Mas pergunto: a renda per capita em dólares avançou? Não. A renda média do brasileiro acompanhou a renda de cidadãos de outros paises emergentes, na Ásia, na Europa ou na África? Não. A renda média do brasileiro ficou muito para trás. Ou seja, o país foi nivelado por baixo. O PT fez uma política de segurar o conjunto da sociedade embora puxando as camadas de baixo um pouco para cima com mais assistência. A desigualdade foi reduzida por achatamento das classes intermediárias da renda nacional. Enfim, uma falsa solução. Se houvesse uma politica de crescer com inclusão, ninguém seria obrigado a marcar passo pra todos ficarem mais nivelados. Todos poderiam crescer mais e juntos. Sem deixar ninguém pra trás.
4. O federalismo brasileiro vive tensões entre estados ricos e pobres, especialmente sobre partilha de tributos e responsabilidades. O modelo atual de financiamento estadual é sustentável ou precisa de uma reforma estrutural?
Qual federalismo? Náo há federalismo efetivo. Nem há propriamente estados "ricos e pobres". Há pobres em estados ricos. Todos os estados brasileiros exibem bom potencial. Mas há estados com administrações "pobres". São administradores mal preparados e corruptos e estruturas sociais de renda concentrada demais que produzem tanta pobreza. Além, é óbvio, do abandono das metas em educação básica e preparação profissional dos jovens. Os Estados são tornados maos dependentes de Brasilia pelo sistema de impostos que concentram a coleta e distribuição em Brasilia. Há regras que redistribuem recursos em desfavor das cidades e estados que se esforçam mais. Isso é justo? Não. Produzimos incentivos às más gestões. E o que falar da divida federativa dos estados, toda na mão do Tesouro nacional? Faz sentido? Também não...não há ainda um federalismo efetivo no nosso País
5. A inflação caiu, mas o brasileiro ainda sente dificuldade no fim do mês. O que o governo deveria fazer para melhorar a vida de quem depende de salário fixo?
As pessoas deveriam se convencer de que não são os governos que "melhoram o salário fixo" das pessoas. O máximo que um governo pode fazer é atrapalhar menos. O no Brasil, os governos são diretamente responsáveis por atrapalhar muito . Como é isso? Temos as contribuições previdenciarias mais elevadas do planeta. Isso ajuda ou atrapalha o valor do salario que você levar para casa? Baixar os encargos ao INSS reformulando o que é previdência social seria primeira medida. Em seguida, reduzir o imposto sobre o consumo. Fizeram uma reforma tributária. Mas que reforma? O brasileiro vai pagar uma taxação campeã mundial sobre os preços de mercadorias e serviços. Outra medida é revisitar essa reforma e fazer uma reforma da reforma do imposto sobre bens e serviços. Outro devorador do salario é o juro que o brasileiro paga no cartão e nas compras a prazo..uma ampla reforma financeira das dívidas públicas e privadas é medida essencial.




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