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Barra Mansa,17/10/2026

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    Augusto Ramacciotti

    A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026

    E os desafios históricos da esquerda


    A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026

    A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 e os desafios históricos da esquerda

    Por Augusto Ramacciotti

    A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 exige uma análise que articule processos históricos, condições materiais de vida, organização política e acontecimentos de campanha. Explicações concentradas em um único episódio podem obscurecer as relações que produziram o resultado. Da mesma forma, recorrer apenas às tendências gerais do capitalismo deixa sem resposta a pergunta sobre como essas tendências se converteram em votos nesta eleição.

    Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva. A diferença de 1,87 ponto percentual representa uma vantagem relevante, mas a eleição permanece em disputa. O resultado também não autoriza atribuir uma motivação uniforme aos milhões de eleitores de cada candidatura. Adesão ideológica, rejeição ao adversário, avaliação do governo e expectativas pessoais podem combinar-se de maneiras diferentes.

    A perspectiva marxista-leninista adotada neste artigo procura compreender como as relações sociais se traduzem em consciência, organização e ação política. Os fatores estruturais condicionam as possibilidades de disputa; os conjunturais interferem na maneira como essas possibilidades se realizam. Nenhum desses planos dispensa o exame do outro.

    A derrota histórica do campo socialista permanece como um condicionante da disputa ideológica. A queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991, foram interpretadas por seus adversários como comprovação da inviabilidade de qualquer alternativa ao capitalismo. A derrota de experiências determinadas foi convertida em argumento contra todo um horizonte de emancipação.

    O livro de Francis Fukuyama, O fim da história e o último homem, publicado originalmente em 1992, tornou-se uma expressão emblemática daquele ambiente intelectual. A tese de que a democracia liberal constituiria o ponto de chegada da evolução política foi frequentemente recebida como confirmação de que as grandes alternativas sistêmicas haviam perdido seu lugar na história.

    Minha interpretação é que esse abalo favoreceu uma tendência de acomodação de setores da esquerda aos limites da ordem existente. Em parte de suas organizações, a transformação das relações de produção cedeu espaço à expectativa de administrar o capitalismo de forma socialmente mais equilibrada. Reformas e políticas públicas, necessárias em muitas circunstâncias, passaram a ocupar o lugar de horizonte predominante.

    Essa hipótese histórica não explica automaticamente o resultado de 2026. Sua importância aparece nas consequências sobre programas, formação política, organização popular e capacidade de apresentar uma alternativa. É por essas mediações que devemos investigar sua influência sobre o presente.

    A avaliação das experiências socialistas integra esse problema. Uma narrativa que as reduz à burocracia, à repressão e ao desfecho soviético oferece uma compreensão insuficiente de seu significado. Suas realizações precisam ocupar um lugar central no balanço histórico.

    A campanha cubana de alfabetização de 1961 constitui um exemplo concreto de transformação social. A UNESCO reconhece seu significado educacional e sua influência internacional. Uma conquista dessa natureza permite discutir a capacidade de mobilização coletiva e de reorganização de prioridades demonstrada por determinadas experiências socialistas.

    O mesmo método deve orientar o estudo das mudanças na saúde, no trabalho, na produção, no acesso à cultura e na soberania nacional: identificar condições de partida, resultados, beneficiários e contradições. Experiências distintas não podem ser fundidas numa trajetória única, tampouco avaliadas exclusivamente pela distância em relação a uma sociedade ideal.

    Destacar suas realizações exige também investigar burocratização, repressão e dificuldades de participação popular. Guerras, isolamento e pressões externas integram a explicação, sem constituir justificativas automáticas para qualquer decisão. Um balanço materialista deve produzir conhecimento sobre os avanços e sobre os mecanismos que limitaram sua continuidade.

    Quando setores da própria esquerda apresentam a história socialista principalmente como uma sequência de fracassos, podem enfraquecer a credibilidade da alternativa que defendem. A crítica precisa permitir aprendizado e renovação do projeto emancipatório.

    Outro fator estrutural é o afastamento de setores da chamada esquerda radical do materialismo histórico. Essa crítica deve identificar posições e práticas, respeitando as diferenças entre organizações. A radicalidade de uma declaração não assegura a qualidade histórica de sua análise.

    Esse afastamento aparece quando processos reais são julgados sobretudo pela correspondência com um ideal previamente estabelecido. Também se manifesta na repetição de fórmulas de outras épocas, sem investigar mudanças no trabalho, na composição das classes, no desenvolvimento tecnológico e nas relações internacionais.

    No prefácio de 1859 à Contribuição à crítica da economia política, Marx relaciona as formas de consciência às condições sociais de existência e às contradições da produção. Esse ponto de partida orienta a investigação das condições em que as pessoas vivem e das possibilidades históricas de transformação.

    Uma análise pode ser contundente em suas denúncias e limitada em sua capacidade de orientar a ação. O problema aparece quando não consegue compreender os sujeitos concretos da transformação, suas formas de organização e os caminhos pelos quais podem ampliar sua força.

    A tradição leninista oferece uma contribuição ao examinar compromissos, mediações e atuação em condições adversas. A discussão de Lenin sobre esses problemas mostra a necessidade de avaliar circunstâncias e efeitos políticos, preservando os objetivos de transformação. Essa contribuição pode orientar o método, sem transformar respostas de 1920 em receitas para 2026.

    A falta de articulação entre lutas táticas e luta estratégica constitui o centro político desse diagnóstico. Eleições, negociações salariais, defesa de direitos e políticas públicas podem integrar uma estratégia socialista. A questão é como cada conquista contribui para ampliar organização, consciência e capacidade de ação popular.

    Uma melhoria imediata pode aliviar uma necessidade e fortalecer os sujeitos que lutaram por ela. Esse segundo efeito depende da continuidade da participação, da formação política e da construção de vínculos coletivos. Quando a relação com a população se concentra na entrega de benefícios e na solicitação periódica do voto, corre-se o risco de produzir apoio eleitoral com pouca organização duradoura.

    Administrar governos envolve decisões importantes e conflitos reais. Entretanto, a ocupação institucional pode absorver a atividade política a ponto de fazer da reprodução de mandatos um objetivo predominante. A estratégia precisa orientar a tática por perguntas concretas: quem se organiza, quem participa, que capacidade de decisão se amplia e quais relações de poder são alteradas?

    Esse problema deve ser relacionado às transformações materiais do trabalho. Informalidade, terceirização e trabalho por plataformas podem dispersar trabalhadores e dificultar experiências coletivas. Pessoas submetidas a relações de exploração semelhantes podem viver isoladamente seus problemas e interpretá-los como insuficiências pessoais.

    Discursos sobre mérito e empreendedorismo encontram espaço quando oferecem uma explicação reconhecível para essa experiência. O trabalhador que precisa garantir diariamente sua renda pode atribuir suas dificuldades à própria capacidade de competir, enquanto perde de vista os mecanismos sociais que condicionam sua atividade.

    Essa interpretação não é inevitável. A condição de classe não produz automaticamente consciência de classe, mas tampouco determina uma adesão necessária ao conservadorismo. Organização, convivência, luta e formação interferem na maneira como a experiência é compreendida.

    A esquerda precisa investigar como essas mudanças afetam seus vínculos sociais. Além dos locais tradicionais de trabalho, deve compreender os espaços em que trabalhadores dispersos se encontram, constroem confiança e podem agir coletivamente.

    A capacidade de oferecer uma perspectiva de futuro também participa da disputa política. Defender conquistas existentes é importante, mas pode ser insuficiente para quem experimenta um futuro bloqueado. Moradia inacessível, trabalho instável e jornadas exaustivas interferem nas expectativas de transformação.

    Um horizonte socialista precisa adquirir conteúdo material: trabalhar menos, viver melhor, estudar, cuidar da saúde, acessar cultura e participar das decisões. A esperança depende de uma relação entre desejo, experiência e possibilidade de ação.

    A afirmação de que a esquerda perdeu a juventude exige dados e distinções. Juventudes de diferentes classes, territórios, gêneros e grupos raciais não formam um sujeito homogêneo. Ainda assim, cabe perguntar se as organizações de esquerda conseguem apresentar um projeto capaz de dialogar com suas experiências.

    O descontentamento pode ser disputado por forças autoritárias que oferecem pertencimento, identificação de inimigos e promessa de ruptura. Compreender sua receptividade exige estudar as necessidades às quais essas mensagens procuram responder e as consequências políticas das respostas oferecidas.

    Essa disputa ocorre nas famílias, escolas, igrejas, meios de comunicação e plataformas digitais. São espaços heterogêneos, atravessados por conflitos. Explicar sua influência apenas pela manipulação pode ocultar relações de acolhimento, ajuda material, convivência e sentido que algumas instituições oferecem.

    A construção de alternativas requer presença cotidiana. Comunicação própria, sindicatos, associações, movimentos e espaços culturais podem ligar problemas vividos às suas causas sociais e às possibilidades de ação coletiva. O desafio é examinar sua densidade, alcance e capacidade de incorporar setores que vivem novas condições de trabalho.

    A visibilidade digital pode ampliar a circulação de ideias, mas a organização permite dar continuidade à participação. Confundir audiência com força social dificulta avaliar a capacidade efetiva de intervenção.

    Também é necessário examinar a distribuição desigual dos recursos de poder. Dinheiro, propriedade dos meios de comunicação, controle de plataformas, posições institucionais e redes territoriais condicionam a disputa.

    As emendas parlamentares devem ser investigadas pelo modo como distribuem recursos, fortalecem lideranças e podem produzir dependência política. Nas plataformas, importam os modelos de negócio, algoritmos, publicidade e critérios de moderação. A hipótese de favorecimento eleitoral precisa identificar mecanismos, responsáveis e efeitos demonstráveis.

    Uma análise de classe do Estado deve reconhecer contradições e conflitos internos. Seu papel na reprodução das relações sociais não dispensa o exame específico de decisões, instituições e disputas.

    Os fatores conjunturais ajudam a compreender como essas condições se traduziram na votação. A avaliação do governo e da economia ocupa um lugar importante. O eleitor experimenta a situação econômica por meio de preços, aluguel, parcelas, transporte e trabalho; sua percepção pode divergir dos indicadores agregados.

    Em março de 2026, o Datafolha já registrava 46% percebendo piora da economia nacional e 33% percebendo piora da própria situação econômica. O levantamento não explica o resultado de outubro, mas identifica um desgaste anterior aos acontecimentos finais da campanha.

    Rejeição e identificação política também precisam ser distinguidas. O voto em Flávio pode expressar adesão ao bolsonarismo, oposição ao PT ou avaliação negativa do governo. O voto em Lula igualmente reúne expectativas e motivações diversas. Investigar essa composição ajuda a compreender a estabilidade e os limites de cada apoio.

    A concentração eleitoral na reta final constitui outro mecanismo. Na Quaest, entre 28 de setembro e 3 de outubro, Flávio passou de 34% para 38% dos votos totais, enquanto Lula passou de 39% para 40%. Esse movimento é compatível com uma concentração de votos em Flávio, mas não identifica, sozinho, sua origem ou causa.

    O caso Master e a crise institucional merecem atenção pelo potencial de desgaste e pela disputa de narrativas. Em setembro, o Datafolha encontrou 38% apontando Lula como prejudicado pela crise e 31% apontando Flávio. São percepções sobre prejuízo às candidaturas, que não equivalem a mudanças efetivas de voto.

    Esses dados indicam uma percepção assimétrica de desgaste e justificam investigar em que medida a crise contribuiu para a vantagem de Flávio. A hipótese de instrumentalização política deve ser examinada a partir das decisões adotadas, da seleção das informações divulgadas, da cronologia dos vazamentos e de seu alcance. Trata-se de uma exigência de defesa da democracia: eventual uso eleitoral de investigações e procedimentos judiciais demanda apuração rigorosa e responsabilização.

    Como já sustentei em minhas redes sociais, considero que há motivos para investigar a hipótese de favorecimento de uma candidatura e o risco de reprodução de práticas que caracterizei como uma “Lava Jato 2.0”. Essa avaliação política precisa ser submetida à verificação dos fatos. Cabe à sociedade civil cobrar transparência e esclarecimentos sobre a autoria dos vazamentos, os critérios de divulgação e a eventual coordenação entre os envolvidos, para que se possa estabelecer, com provas, se houve interferência deliberada na disputa eleitoral.

    Em outra pesquisa, realizada de 8 a 10 de setembro, 85% disseram que as acusações envolvendo Moraes não alteraram sua preferência, e 86% disseram o mesmo sobre as envolvendo Mendonça. Esse retrato não elimina efeitos posteriores, mas recomenda cautela na atribuição causal.

    De todo modo, chama a atenção o deslocamento do debate eleitoral: as propostas para o país perderam espaço para o caso Master, enquanto a discussão sobre os presidenciáveis cedeu lugar à controvérsia em torno do ministro Alexandre de Moraes, que sequer era candidato. Na minha avaliação, esse deslocamento restringiu o debate sobre os projetos políticos efetivamente submetidos ao voto.

    Outro aspecto relevante é o possível efeito da narrativa de que “todos são corruptos”. Ao generalizar as suspeitas e diluir as diferenças de responsabilidade, essa narrativa poderia favorecer Flávio, também confrontado com acusações relacionadas ao caso Master. A percepção de uma corrupção indistinta poderia relativizar o peso das acusações contra ele: se todos fossem igualmente culpados, sua própria conduta perderia força como critério de escolha eleitoral. Trata-se de uma hipótese sobre o efeito político dessa narrativa, cuja influência sobre o voto precisa ser investigada.

    Mobilização e comparecimento completam a análise. Uma campanha pode conquistar apoio, consolidar preferências ou levar seus eleitores às urnas. Depois do primeiro turno, 84% dos entrevistados pelo Datafolha disseram ter decidido o voto presidencial pelo menos um mês antes. Isso sugere bases consolidadas, embora uma parcela menor possa alterar uma disputa apertada.

    O peso desses mecanismos deve ser investigado pelo cruzamento entre pesquisas, abstenção e resultados territoriais. A margem final registra uma correlação de forças eleitoral; sua explicação exige reconstruir o processo que a produziu.

    A interpretação aqui proposta articula essas dimensões. Condições materiais produzem experiências e descontentamentos; organizações e discursos disputam seus significados; a capacidade de ligar demandas imediatas a um projeto histórico interfere nessa disputa; acontecimentos de campanha e mobilização contribuem para sua expressão eleitoral.

    O desafio da esquerda envolve recuperar o materialismo histórico como método, reconhecer as realizações das experiências socialistas e aprender com suas contradições. Envolve também articular lutas táticas e estratégia, ampliar a participação popular e dar conteúdo concreto à perspectiva de transformação.

    A vantagem de Flávio no primeiro turno coloca uma tarefa eleitoral imediata e uma questão histórica: como construir uma força social capaz de transformar insatisfação em organização, conquistas em capacidade de ação e esperança em projeto coletivo? A resposta exige investigação, debate e prática política continuada.

    Augusto Ramacciotti é advogado, pesquisador independente dedicado ao estudo do marxismo e autor do livro O Socialismo do Nosso Tempo.

     

     



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