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Barra Mansa,06/07/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    O Sequestro da Magia

    A Ilusão da Camisa Amarela


    O Sequestro da Magia

    O Sequestro da Magia

    A Ilusão da Camisa Amarela

    Por Marcelo Kieling

    Eu já sabia!

    Não há mérito algum em ser profeta do óbvio, mas confesso que prever a queda daquele time de camisa amarela nas oitavas de final da Copa do Mundo não exigiu bola de cristal. Foi, antes de tudo, a leitura atenta de uma crônica de morte anunciada. Os erros que nos trouxeram até este abismo não nasceram ontem; são fraturas expostas há muito tempo, calcificadas pela negligência, pelo deslumbre e por uma soberba que não encontra mais lastro na realidade do campo.

    O futebol, que sempre foi o maior espelho e a maior representatividade da nossa sociedade — o palco onde o filho do operário se tornava rei e o Brasil se reconhecia como potência — teve sua alma usurpada. Lembra de quando a bola rolava solta, movida pelo esporte de verdade? Pela fome de glória, pelo lúdico, pela malandragem santa que desafiava a física? Foi nessa época, embalada pelo talento puro e pela conexão visceral com o povo, que bordamos cinco estrelas no peito. Hoje, porém, a paixão esportiva foi sequestrada. Em seu lugar, deixaram um bilhete de resgate cobrado em euros, assinado por interesses comerciais e políticos que se infiltraram nas entranhas do nosso esporte como um câncer silencioso. A camisa amarela, outrora um manto sagrado, virou balcão de negócios, um outdoor ambulante para marcas que pouco se importam se a bola entra ou sai, desde que o engajamento nas redes sociais permaneça em alta.

    Para quem tem memória, o presente não é apenas uma derrota; é um insulto. Como aceitar a mediocridade quando fomos forjados na fornalha da excelência? Como aplaudir o comum quando nossos olhos foram batizados pela luz da genialidade? Quem teve o privilégio de ver a realeza de Pelé, a elegância de Gérson e Falcão, a patada atômica de Rivelino, a inteligência humanista de Sócrates, a precisão cirúrgica de Zico e a genialidade de Ronaldinho, simplesmente não consegue engolir a imagem de um Paquetá portando a batuta de armador. É como trocar um concerto de Villa-Lobos por um jingle de elevador.

    Olhamos para as laterais, onde um dia reinaram a imponência de um Carlos Alberto Torres, a classe inigualável de Leandro e Júnior, a força bruta de Roberto Carlos e o vigor de Branco... e nos deparamos com o pragmatismo oco, sem brilho e sem alma de Danilo e Douglas Santos. Onde está o apoio? Onde está a coragem de atacar o espaço? Onde está a identidade do ala brasileiro que aterrorizava as defesas europeias? O que vemos hoje é uma cópia malfeita do que se convencionou chamar de "futebol moderno", uma pasteurização tática que transformou nossos artistas em operários de uma engrenagem que eles sequer compreendem.

    E o ataque? Ah, o ataque. O solo onde outrora floresceram Jairzinho, o Furacão; Bebeto, o mestre do voleio; Romário, o gênio da pequena área; e Ronaldo Fenômeno, a força da natureza que desafiou a medicina para nos dar o penta. Hoje, o torcedor esfrega os olhos, incrédulo e com um nó na garganta, ao ver um tal de Igor — Igor, quem mesmo? — carregando a responsabilidade de ser o artilheiro do país do futebol em um Mundial. É esperar resultados realistas de uma fábula mal contada, de um roteiro escrito por estagiários de marketing que acreditam que seguidores no Instagram ganham divididas no meio-campo.

    Mas o buraco no casco desse navio foi aberto de propósito. A contratação milionária de um técnico italiano, alheio a qualquer vínculo emocional ou histórico com o nosso futebol, já me trazia a convicção do fracasso antes mesmo do primeiro apito. Não há raiz. Não há o entendimento do que significa o peso dessa camisa para o homem que acorda às cinco da manhã e encontra no futebol sua única alegria semanal. A calamidade se confirmou na ausência de um treinamento estruturado, nas listas de convocações que pareciam atender a planilhas de empresários e na roleta-russa de escalações que mudavam ao sabor do vento, sem qualquer critério técnico que justificasse a dança das cadeiras.

    A minha maior certeza da ruína, no entanto, veio de fora das quatro linhas. A superexposição publicitária do treinador era o retrato obsceno do desastre. Foram milhões de euros investidos para dar visibilidade a marcas de cerveja, passeios turísticos e campanhas de estilo de vida, enquanto o campo permanecia árido. O futebol virou um detalhe incômodo, um intervalo necessário entre uma gravação de comercial e outra. O foco não era o esquema tático, era o enquadramento da câmera. Não era o suor, era o gel no cabelo.

    O ato final dessa tragédia não poderia ser mais simbólico, nem mais doloroso. Lágrimas no gramado. Lá estava o jogador arrogante, convocado por determinações que passam quilômetros de distância dos critérios técnicos, chorando a derrota diante das câmeras. Um choro que não comove o torcedor, pois não cheira a grama cortada, não cheira ao esforço de quem deixou tudo em campo. Aquele pranto cheira a ego ferido, a frustração de quem viu o plano de valorização de mercado ser interrompido por um adversário mais organizado e, ironicamente, mais apaixonado pelo jogo.

    Enquanto eles embarcam de volta em seus jatinhos, apegados aos seus contratos milionários e às suas vidas blindadas na Europa, eu fico aqui, neste Brasil de terra roxa e história desbravada. Fico olhando para o passado com uma saudade que dói no peito, lembrando do meu pai, do meu avô e de tantos outros que viram o Brasil ser gigante sem precisar de filtros de realidade aumentada. Deixo uma única pergunta ecoando no ar, como um grito num estádio vazio: afinal, onde foi parar o futebol brasileiro que um dia dominou, encantou e deu ao mundo a prova de que a magia era possível?

    O que nos resta é a ilusão do amarelo, uma cor que hoje brilha mais nos balanços financeiros do que nos olhos de uma criança que sonha em ser craque. O sequestro foi concluído. E o resgate, temo eu, talvez não possa mais ser pago com dinheiro, mas apenas com um retorno humilde às nossas verdadeiras raízes.

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.

     



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