MK - Marcelo Kieling
A Democracia Não Morre de Infarto — Morre de Desgaste
A democracia não é um ponto de chegada irreversível.
A Democracia Não Morre de Infarto — Morre de Desgaste
Por Marcelo Kieling
A chegada vitoriosa da extrema direita em eleições presidenciais na Amércia do Sul, já começa a apresentar mais um sério risco ao sistema democrático do Brasil.
Há uma imagem que persiste no imaginário político: a da democracia tombando sob tanques, sob golpes militares, sob a farda e a boina de homens armados que invadem palácios e fecham parlamentos. É uma imagem reconfortante — porque nela o inimigo vem de fora, é visível, usa uniforme. O problema é que as democracias do nosso tempo não estão morrendo assim. Estão morrendo como se morre de cansaço: devagar, com o corpo cedendo ao peso dos dias, órgão por órgão, até que um dia o diagnóstico chega e ninguém pode mais dizer que não viu os sinais.
Talvez este meu texto pode ter o mérito raro de nomear o fantasma. A ilusão da imunidade institucional, a crise de representação, o caso peruano e colombiano, a Europa rendida ao seu próprio mito. Tudo isso está ali, friamente disposto como peças de anatomia sobre uma mesa de mármore. Cria-se um cenário em que tudo soa como ossos rangendo antes de quebrar.
Vejo esta minha tese central como irretocável, pois as instituições não operam no vácuo. Durante décadas, a ciência política ocidental tratou Constituições e Tribunais como se fossem vacinas — uma dose e pronto, imunidade vitalícia contra o autoritarismo. Bobbio já alertava que a democracia é um conjunto de regras do jogo que precisam ser constantemente renovadas pelo consentimento e pela participação. Consentimento e participação — eis as palavras que o século XXI está apagando do dicionário.
A atual narrativa, chamada de "desgaste do tecido social", é, para quem vive na pele das cidades brasileiras, uma experiência quase tátil. O sujeito que perdeu o emprego na indústria que fechou, que viu o filho emigrar porque aqui não havia futuro, que acompanha pelo YouTube promessas de ordem e pulso firme — esse sujeito não está aderindo ao autoritarismo por convicção ideológica. Está aderindo por desespero. E o desespero, diferentemente da ideologia, não negocia, não pondera, não espera o Judiciário decidir.
Este é um texto que busca acertar em cheio um diagnóstico da desintermediação promovida pelas redes sociais. Com a minha trajetória vivida por décadas em torno de redações — BNDES, IBGE, LANCE!, BRASIL ECONÔMICO, O DIA — hoje posso testemunhar a erosão do ofício. Antes, o cidadão precisava de um jornal para saber o que acontecia no mundo; precisava de um partido para articular sua indignação. Hoje, o algoritmo é o editor, o feed é a tribuna, e a raiva é a moeda. A consequência é uma política que não debate, mas contamina. Que não convence, mas viraliza.
Mas é no tratamento dos casos latino-americanos que assistimos alcançar a sua maior potência — e também sua mais incômoda omissão. O Peru e a Colômbia estão ali, dissecados com precisão clínica. O Brasil, não. E aqui, entre nós, a pergunta que não quer calar: estamos diante de um fenômeno de observação estrangeira ou de um espelho que ainda não tivemos coragem de encarar?
"A democracia latino-americana não conseguiu resolver suas promessas básicas de inclusão econômica e segurança pública."
Ora, se há um país que encarna essa contradição em estado puro, é o Brasil. Um país onde a democracia convive com índices de desigualdade que envergonham o continente, com um sistema de segurança que mata mais do que protege, com uma representação política tão fragmentada que governar se tornou um exercício de sobrevivência, e não de gestão. Se o eleitor busca alternativas quando a democracia não entrega, o que dizer de um eleitorado que nunca viu a democracia entregar?
Mas é preciso ter honestidade intelectual e demonstrar que democracias têm anticorpos. Que a Alemanha viu milhões de pessoas nas ruas contra a extrema direita. Que a Polônia reagiu. Que Meloni, no poder, moderou-se. Tudo verdade. É essencial advertir que a história não é teleológica. Não há garantia de vitória. E o pior dos cenários não é a extrema direita vencer — é ela perder as eleições, mas ganhar a alma do debate, deslocando o centro para um lugar onde a moderação se torna radical e a radicalidade se torna normal.
Chegamos a um ponto mais do que doloroso. Porque a normalização do radicalismo não acontece por decreto. Acontece por repetição. Acontece quando o vizinho começa a repetir o que ouviu no WhatsApp, quando o comentário no bar deixa de ser absurdo para ser "polêmico", quando o apresentador do telejornal trata a extrema direita como mais um time no jogo democrático. Acontece quando a frase "sempre foi assim" substitui o espanto.
Precisamos, contudo demonstrar que a honestidade tangencia, mas não aprofunda pois é grande a responsabilidade da esquerda e do centro nesse processo. A crise de representação não é um fenômeno unilateral. Partidos progressistas também se burocratizaram, também perderam o contato com as bases, também falaram uma língua que o povo não entendia. O antipetismo no Brasil, o antissocialismo na França, o antiesquerdismo na Colômbia — tudo isso tem lastro em fracassos reais de gestão, em promessas não cumpridas, em uma certa arrogância intelectual que tratou o eleitor como massa de manobra e não como cidadão.
Onde isso nos deixa? A resposta é sábia: a fragilidade não está na democracia como ideia. Está na nossa tendência de tratá-la como conquista definitiva, quando ela é construção cotidiana, frágil e exigente.
Concordo. E acrescento: ela é também chata, lenta, cheia de acordos e meias-palavras. A democracia exige do cidadão exatamente o que o cidadão moderno está menos disposto a dar: atenção, paciência e tolerância à frustração. O autoritarismo, ao contrário, é espetacular, rápido e promete soluções sem custos. O problema é que, como toda dívida, o custo chega — e sempre chega com juros.
A diferença entre uma democracia que sobrevive e uma que sucumbe não está na solidez de suas leis. Está na disposição de seus cidadãos de defenderem o tédio institucional contra o entusiasmo autoritário. E aí, talvez, esteja o dado mais perturbador de todos: o entusiasmo sempre vence o tédio — a menos que o tédio aprenda a lutar.
A democracia não é um ponto de chegada irreversível. É uma construção.
Que assim seja. Que a gente construa, então. Antes que o cansaço vença de vez.
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.




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