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Barra Mansa,21/06/2026

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    MK - Marcelo Kieling

    A Dieta do Rancor:

    Quando a Fome de Futuro é Alimentada pelo Ódio


    A Dieta do Rancor:

    A Dieta do Rancor:

    Quando a Fome de Futuro é Alimentada pelo Ódio

    Por Marcelo Kieling

    Em 1987, quando os Titãs lançaram a faixa Comida, o Brasil tateava os primeiros passos de sua redemocratização. Havia uma urgência física nas ruas, mas havia, sobretudo, uma fome metafísica. "Bebida é água, comida é pasto / Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?", questionava a letra de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto. A canção traduzia o óbvio que a tecnocracia teimava em esquecer: a existência humana não se esgota na tabela de calorias ou no índice de inflação. O cidadão exige o "inteiro e não pela metade"; demanda "comida, diversão e arte", quer "saída para qualquer parte".

    Quase quatro décadas depois, o eco dessa pergunta continua a ressoar sobre o solo infértil do debate público brasileiro. No entanto, a resposta que a contemporaneidade tem oferecido a essa fome histórica não vem da arte, da diversão ou da promessa de emancipação. Vem de uma dieta rigorosa de hostilidade. A radical extrema direita brasileira compreendeu, com precisão quase cirúrgica, que onde há um vazio de sentido, de segurança e de pertencimento, é possível plantar o rancor. O ódio, no tabuleiro político atual, deixou de ser um mero espasmo de descontrole emocional para se consolidar como uma sofisticada e calculada tecnologia de poder.

    O Combustível da Negatividade

    Para compreender a eficácia dessa engrenagem no Brasil, é preciso descer aos porões da nossa psicologia evolutiva. O cérebro humano, moldado pela necessidade de sobrevivência em ambientes hostis, possui o que a psicologia comportamental chama de "viés de negatividade". Reagimos com muito mais rapidez e intensidade a ameaças do que a estímulos benéficos. O medo e a raiva são afetos de mobilização instantânea.

    A moderação, a promessa de reformas estruturais lentas e a defesa da estabilidade institucional exigem paciência, cognição complexa e, fundamentalmente, tempo para apresentar resultados práticos. São pratos de digestão difícil para quem tem pressa. Já o pânico moral — o temor de perder a identidade, a fé, a segurança ou o status social — opera como um combustível de alta octanagem. O populismo reacionário alimenta essa fogueira diariamente. Ele tira o eleitor da apatia não pelo convite à construção, mas pelo chamado à trincheira. Sob essa ótica, o engajamento digital e a presença nas urnas não nascem do desejo de um projeto comum, mas do pavor de que o "inimigo" vença.

    A Ruína do Outro como Prato Principal

    Essa dinâmica altera profundamente a natureza da divergência política. Historicamente, a polarização tradicional se dava no campo das ideias: debatia-se o tamanho do Estado, a carga tributária, as prioridades orçamentárias. Havia respeito com o reconhecimento mútuo de que o oponente, embora equivocado, era um concidadão legítimo.

    A extrema direita contemporânea, contudo, substituiu a polarização ideológica pela polarização afetiva. O adversário não é mais alguém que propõe um caminho diferente para o país; ele é transformado em uma ameaça existencial à nação, à família e à moralidade. "A gente não quer só comer / A gente quer prazer pra aliviar a dor", cantavam os Titãs. Mas na mesa da polarização afetiva, o único prazer oferecido é o direito da aniquilação simbólica do outro. Quando o debate é moralizado ao extremo, qualquer tentativa de diálogo ou concessão passa a ser lida como traição. A base de apoiadores violentos radicalizados e sob constante estado de alerta, fecha fileiras em torno do líder, blindando-o contra qualquer crítica racional.

    O Banquete dos Bodes Expiatórios

    O Brasil é um país de dores complexas e históricas. A desigualdade abissal, a violência endêmica que sangra as periferias, a precariedade dos serviços básicos e a estagnação econômica são problemas estruturais que demandam soluções multifacetadas, paciência e de um  pactuo coletivo. No entanto, esta complexidade é inimiga da mobilização de massas.

    É aqui que entra a lógica populista do "bode expiatório". Em vez de propor políticas públicas densas e de longo prazo, a retórica do extremismo simplifica a tragédia nacional. A culpa pela dor do cidadão comum é personificada e transferida para alvos fáceis: as minorias, a classe artística, a imprensa livre, o poder judiciário ou uma conspiração "esquerdista" onipresente. Ao apontar o dedo para o inimigo da vez, o líder exime-se da responsabilidade de governar. O papel do governante deixa de ser o de construir hospitais ou melhorar escolas; passa a ser o de "destruir" os monstros que ele mesmo desenhou na parede. A fome de soluções reais é saciada com o espetáculo da perseguição.

    A Cortina de Fumaça e o Sequestro da Atenção

    Essa indignação manufaturada cumpre ainda uma função tática essencial: o sequestro do debate público. Na era da economia da atenção, quem dita a pauta domina o jogo. Ao proferir declarações deliberadamente agressivas, absurdas ou contaminada de preconceito, os atores da extrema direita obrigam a imprensa, a oposição e a sociedade civil a reagirem.

    Cria-se, assim, uma cortina de fumaça permanente. Enquanto o país se desgasta debatendo a última provocação de rede social ou a mais nova teoria conspiratória, temas urgentes como a reforma tributária justa, o desmatamento, a fome real e as sérias investigações da corrupção política são empurrados para a periferia do noticiário. A agressividade sistemática garante o controle da agenda. Não há espaço para avaliar a eficácia de um governo quando a sociedade é mantida em um estado de sobressalto contínuo.

    A Ilusão de Pertencer ao Conflito

    Talvez a dimensão mais trágica desse fenômeno seja a sua capacidade de oferecer um simulacro de comunidade. Vivemos em uma época de profunda fragmentação social, onde o trabalho precário, o isolamento digital e a perda de referenciais coletivos deixam o indivíduo desamparado.

    "A gente quer inteiro e não pela metade", clamavam os Titãs. Diante de uma vida vivida aos pedaços, o pertencimento através do conflito surge como um bálsamo sedutor. Participar de um linchamento virtual, integrar um grupo da maldita bolha digital das redes sociais que compartilha da mesma indignação ou marchar em uma manifestação agressiva confere ao sujeito invisível um senso de propósito. Ele deixa de ser um náufrago da economia moderna para se tornar soldado de uma cruzada cósmica contra o mal. O ódio compartilhado cria uma coesão social poderosa, ainda que patológica.

    O Retorno à Verdadeira Fome

    O ódio como método de controle político é um banquete de calorias vazias. Ele barateia o custo da mobilização, protege os canalhas demagogos de suas próprias incompetências e oferece bodes expiatórios para dores reais. Mas ele não cura a doença; apenas anestesia o paciente enquanto o organismo definha.

    Ao fim e ao cabo, a utilização do rancor como ferramenta de poder é a negação absoluta da promessa contida na canção dos Titãs. O ódio divide o país pela metade, quando o que precisávamos era dele "inteiro". Ele oferece o pasto da hostilidade para quem tem sede de dignidade.

    Para superar esse ciclo de degradação democrática, o caminho não passa pela negação das nossas paixões ou pela imposição de uma harmonia artificial. Passa, sim, pelo resgate da nossa verdadeira fome. É preciso lembrar que a sociedade brasileira não quer apenas sobreviver sob o jugo do medo. Nós queremos "comida, diversão e arte". Queremos "saída para qualquer parte". Queremos, fundamentalmente, resgatar o direito de desejar a vida exatamente como a vida quer: livre, inteira, plural e digna.

    Precisamos mudar o Brasil. Vamos?

    Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo. Todo o conteúdo foi revisado por humanos.


     



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