JJ
Datafolha e a Armadilha da Euforia
Pesquisa eleitoral é fotografia, não filme.
Datafolha e a Armadilha da Euforia
Por JJ
A nova pesquisa Datafolha divulgada nesta semana trouxe uma notícia positiva para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de um período em que os levantamentos mostravam desgaste do governo e uma redução consistente de sua vantagem eleitoral, o petista voltou a aparecer em posição mais confortável nos cenários de segundo turno, inclusive abrindo vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro, que até poucos dias atrás aparecia em empate técnico com o presidente.
Como eleitor do campo progressista e apoiador de Lula, recebo esses números com satisfação. Mas também considero fundamental evitar um erro recorrente da política brasileira: sair da depressão para a euforia em questão de dias.
Pesquisa eleitoral é fotografia, não filme.
Se era equivocado transformar levantamentos desfavoráveis ao presidente em sentença definitiva de derrota, também seria precipitado interpretar a melhora atual como prenúncio inevitável de vitória. Há apenas uma semana, o próprio Datafolha registrava empate entre Lula e Flávio Bolsonaro, ambos com 45% das intenções de voto em um eventual segundo turno. Antes disso, outras pesquisas já haviam mostrado um cenário de forte competitividade, com oscilações constantes entre os dois polos políticos.
A questão central, portanto, não é apenas observar que Lula melhorou. É compreender por que melhorou.
Parte da imprensa tem destacado o impacto negativo das revelações envolvendo Daniel Vorcaro e sua relação com Flávio Bolsonaro. Sem dúvida, episódios dessa natureza podem produzir desgaste político e afetar a imagem de qualquer candidato. As informações sobre o caso dominaram o noticiário e colocaram a campanha bolsonarista em posição defensiva.
Mas reduzir a recuperação de Lula exclusivamente ao desgaste do adversário talvez seja uma simplificação excessiva.
Ao meu ver, a pesquisa parece captar também uma percepção mais favorável do eleitorado em relação às atitudes recentes do presidente. A intensa agenda internacional, a postura institucional adotada em encontros com lideranças mundiais, inclusive o diálogo mantido com Donald Trump, e a recuperação de uma imagem presidencial associada à experiência e à estabilidade parecem ter produzido algum efeito junto a setores moderados do eleitorado. Essa hipótese encontra respaldo em levantamentos que apontam Lula como o candidato percebido como mais experiente na disputa nacional.
Outro aspecto relevante é que a melhora do presidente não ocorre apenas em relação a Flávio Bolsonaro. Os cenários recentes mostram Lula em situação mais confortável diante de outros nomes da direita e da extrema direita, sugerindo que houve uma recuperação mais ampla de sua posição eleitoral, e não apenas um movimento circunstancial provocado por um único episódio envolvendo um adversário específico.
Ainda assim, qualquer tentativa de decretar o resultado da eleição seria um exercício de voluntarismo.
Estamos diante de uma campanha que sequer começou de fato. A disputa presidencial brasileira possui enorme capacidade de transformação ao longo dos meses. Fatos econômicos, acontecimentos internacionais, debates, alianças partidárias, desempenho dos governos estaduais e até eventos imprevisíveis podem alterar significativamente o humor do eleitorado.
Além disso, a eleição de 2026 ainda será atravessada por um fator político e emocional gigantesco: a Copa do Mundo. Historicamente, o calendário político brasileiro ganha intensidade apenas após esse período, quando a atenção da população retorna integralmente para a disputa eleitoral e os candidatos passam a ser avaliados de forma mais direta.
Por isso, a leitura mais equilibrada desta pesquisa talvez seja a seguinte: Lula interrompeu uma trajetória de desgaste, recuperou terreno, voltou a liderar cenários importantes e demonstrou capacidade de reação política. Isso é relevante e merece registro. Mas não autoriza triunfalismos nem comemorações antecipadas.
A esquerda não tinha motivos para desespero quando as pesquisas pioraram. E não tem razões para euforia agora que melhoraram.
A luta política continua. A disputa eleitoral permanece aberta. E a verdadeira batalha de 2026, muito provavelmente, ainda nem começou.
JJ é Sociólogo, Jornalista, Escritor, Poeta, Internacionalista e Capoeira




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