Carmem Teresa Elias
TRÊS SHOWS, TRÊS MULHERES
MÃES, SANTAS, PROFANAS E AS ARTES
TRÊS SHOWS, TRÊS MULHERES
Por Carmem Teresa Elias
Copacabana recebe há 3 anos sucessivos divas da música internacional. Comparar Lady Gaga, Madonna e Shakira não parece fácil, mas uma tônica me guia nesse análise: a capacidade de amadurecimento. Escrevo agora em ordem decrescente de como observei essas mulheres em suas trajetória artísticas e pessoais.
EROS, TÂNATOS E LADY GAGA: PSICOLOGIA DE UM ESPETÁCULO
A natureza humana é dual. Ao mesmo tempo em que persegue a vida, carrega com ela o impulso da morte. Segundo Freud, um dos maiores desbravadores dos enigmas da psiquè humana, além de buscar o prazer, carregamos uma força obscura que nos impulsiona em direção à autodestruição. São as pulsões de vida e de morte que norteiam a complexidade da mente humana.
A vida e o show de Lady Gaga nos mostram de modo elucidativo como esse duelo se debate em nossa mente. A cantora, compositora, atriz e performer traz ao palco o espelho de sua própria luta íntima. Vítima de estupro, que provavelmente lhe deixou de herança sintomas patológicos de fibromialgia e lúpus, ambas doenças deflagradas por fundo emocional, Lady Gaga mergulhou e travou sua luta contra a autodestruição e impulso de morte. Cancelou shows. Seria o trauma de Eros a causa de tanto sofrimento? Tânatos a perseguia e a luta era só dela.
Eros, o instinto da vida, enquanto força invisível a mover nossas ações, é o poder de luta e superação, uma força motriz de combate a Tânatos, capaz de regular a busca pelo prazer.
Os impulsos, contraditórios, levam a mente inconsciente à repetição compulsiva tanto do sofrimento quanto da necessidade de prazer. Aliás, prazer e desprazer compõem duas faces de um mesmo complexo mental, relacionadas que são à quantidade de excitação presentes na vida mental.
Lady Gaga trabalhou sua mente e sintomas conturbados e retornou generosa e suntuosa em sintonia com sua vitória de Eros. Mas traz aos palcos a repetição de sofrimento, luta e cura, em seu show. Mais que um show, uma biografia coreográfica de seu interior. Sua dor, sua inércia, suas moléstias, sua morte simbólica estão lá, de novo. Idem, sua garra de vida, sua sexualidade, sua energia. Ambas as pulsões tanto a reaproximam como a afastam de suas derrotas e superações.
Ela dança com a morte no palco: sua morte, revivendo-a, reinventando-a, tratando e curando-a rumo à estabilidade.
A representação teatral de sua própria trajetória psicológica íntima, transformada em ópera rock, nos palcos, evidencia como a Arte tem o poder de construir, por meio da ficção e na encenação, o princípio de realidade e autopreservação do ego.
Creio que é desse duelo de Eros e Tânatos que surge a força do espetáculo de Lady Gaga, duelo inconscientemente travado por todos nós. A Arte imita a realidade, nos expõe a ela, ao que tememos ver nela, ao que dói em nós do contato com ela. Mais do que um show, Lady Gaga mostrou ao seu público uma representação de si mesma e ao mesmo tempo de cada um de nós. Morte ou vida? Inseparáveis, nos cantos e nos aplausos.
MÃES, SANTAS, PROFANAS E AS ARTES
Nossa Senhora de Copacabana já recebeu também o show de Madonna. A pequena imagem da santa que dá nome ao bairro mais famoso do Brasil veio do Peru, provavelmente no século XVIII e está exposta no Forte de Copacabana no Posto 6. Vale a visita.
Assisti o primeiro show da cantora Madonna no Maracanã em sua primeira turnê no Brasil, há 31 anos, em 1993. Na época ganhamos camisetas com a imagem da artista. A minha se desfez com o uso: adoro dormir de camiseta. Mas minha mãe ainda tem a dela e já imagino que irá vesti-la hoje…
Na época Madonna soava como um escândalo, uma cantora voluptuosa. Confesso que para os padrões do Brasil, numa cidade cujo traje principal é o biquíni e os corpos desfilam quase nus no carnaval, o show de Madonna me surpreendeu, na época, pela inocência. O que o mundo chamava de escândalo, era apenas uma performance muito bem controlada, cuja maldade, se havia, estava apenas algumas mentes radicais, não no palco.
Em 2024 revisitarei Madonna em Copacabana coberta da cabeça aos pés, inclusive de máscara por todo o rosto. Like a Virgin… será que o tempo a fez encobrir o corpo? 30 anos não são 30 músicas…
Inevitável a uma percorredora de museus como eu sou não revirar o pensamento entre as muitas Madonnas que habitam o mundo da Arte. Visitei muitas. Sou dessas que param diante de algumas obras de arte e ficam horas apreciando até que algum segurança me expulse do salão. Minha imagem de Nossa Senhora favorita? Difícil demais escolher entre as pinturas de Da Vinci, Rafael, Botticelli, os incríveis ícones ortodoxos como Nossa Senhora de Kazan ( espetáculos de arte russa). A minha favorita, a de Salvador Dali. Sobre esta última um amigo uma vez argumentou: se você prefere esta, você se sente presa. Eu lhe respondi prontamente: não, repare que a santa rompe as muralhas, a imagem se expande, se solta etérea como espírito ou alma ou tudo junto, ou tudo pleno. Questões de interpretação.
Quanto ao show da cantora, Madonna de máscara, também há quem goste, quem não. Eu, fico com a liberdade de amar a arte.
SHAKIRA E A FALTA DE ASSUNTO
Nos idos 2010, adorava cantar e dançar Waka Waka: havia alegria, vitalidade, energia, vibração.
Depois confesso que não acompanhei o que mais Shakira fez nos anos seguintes. Ontem aguardei o show com certa expectativa.
Shakira é bonita, sensual, animada, muito simpática. Porém Shakira não amadureceu! Que decepção! De suas músicas, não conhecia mais nenhuma - e pouco a plateia, que ouvia sem cantar junto. Shakira continua com a mesma dança- bonita nos requebros, porém seu show mantém o mesmo ritmo e o mesmo movimento o show inteiro. Shakira não muda, não evolui, não traz nada de novo. Parece a mesma menina de 20 anos, dessa vez chorosa pelo ex-marido que a traiu. Essa parece ser a temática de seu show: a mulher chorosa, que alega que mulheres não choram mais, porém canta e fala o tempo todo em traição. Não se curou ainda. Não superou. E nisso não supera a si mesma.
O show de drones inicial ainda causa impacto e anima a plateia de superlotação nas areias na longa longa longa espera pelo show, com um atraso de mais de uma hora e meia, sem qualquer explicação ao público.
Shakira entra meio sem animação ainda. Troca de roupas, mas não troca mais nada.
Por mais graciosa que seja uma dança, um espetáculo precisa ter variações nos movimentos: não houve.
Por mais harmônica que seja, música requer melodia, variáveis de ritmos: não houve. Shakira só canta a mesma batida.
Um espetáculo desse requer conteúdo, enredo, sustentação. Madonna e Lady Gaga trouxeram cenário, história, temáticas variadas, dores humanas mais profundas e história para contar. Shakira não.
Só vi e ouvi os 2 milhões de pessoas presentes cantarem com voz uníssona e vibração sem igual quando Betânia e Ivete Sangalo compartilharam o palco com Shakira. Betânia engoliu a voz de Shakira e Ivete a engoliu com sua presença de palco.
Gosto de Waka Waka. Continuo gostando. Desejo a Shakira que amadureça.




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