MK - Marcelo Kieling
A Profecia do Mestre e o Crepúsculo da Inteligência
O gênio chamado Suassuna
A Profecia do Mestre e o Crepúsculo da Inteligência
Hoje acordei assistindo Ariano Suassuna com a sua inteligência contando seus causos. Um gênio, que com alegria e muito humor narrava histórias incríveis.
Ariano Suassuna, com seu inseparável colete e a autoridade de quem carregava o sertão e a Grécia na mesma algibeira, costumava dizer que a bestialização do ser humano era o grande projeto da indústria cultural moderna. Ele não viveu para ver o ápice da era dos algoritmos, mas sua voz ecoa hoje como uma profecia sombria diante de uma juventude que trocou o peso do livro pelo brilho escravo hipnótico de uma tela de cristal líquido. O que Ariano chamava de "cultura da futilidade" evoluiu para algo mais sinistro: um isolamento digital que não apenas afasta o jovem da leitura, mas o incapacita para o pensamento profundo, mergulhando o conhecimento em um poço de ignorância onde a verdade é a primeira vítima.
Assisto a essa transição com o olhar de quem atravessou redações de jornais, gabinetes de planejamento e corredores de instituições como o BNDES e o IBGE. Vi o dado se transformar em informação, e a informação em ruído. Hoje, a educação, que deveria ser o alicerce da formação clássica — aquela que ensina o indivíduo a pensar, a questionar e a se situar na história —, foi reduzida a um acessório utilitário. Para essa geração imersa na bolha, o saber só faz sentido se puder ser consumido em quinze segundos, entre um scroll e outro, transformando a busca pela sabedoria em uma gincana fútil por curtidas e validações efêmeras.
A Ditadura do Polegar e o Fim do Silêncio
A leitura exige um sacrifício que a juventude atual parece desaprendida a oferecer: o silêncio. Ler um clássico, mergulhar na densidade de um Machado de Assis ou na tragédia de um Shakespeare, requer uma desconexão do mundo exterior para uma conexão com o mundo interior. No entanto, o ecossistema digital foi desenhado para combater o silêncio. O algoritmo é um carcereiro invisível que alimenta o jovem com o que ele já gosta, eliminando o contraditório e o necessário esforço da descoberta.
Essa falta de sincronia com a leitura não é apenas um desinteresse passageiro; é uma mutação cognitiva. Quando a educação se torna fútil, é porque o conceito de "formação" foi substituído pelo de "entretenimento". O jovem não quer mais ser formado — um processo lento, muitas vezes doloroso e sempre exigente —; ele quer ser estimulado. Ariano, em sua indignação de professor, sabia que sem o rigor da inteligência, o povo se torna massa de manobra. O que vemos agora é uma massa de manobra digitalizada, que confunde acesso à informação com posse do conhecimento. Eles têm o mundo nos dedos, mas não têm a menor ideia de como interpretá-lo.
O Naufrágio da Formação Clássica
O desprezo pela formação clássica é o sintoma mais agudo dessa doença social. A ideia de que é preciso conhecer o passado para entender o presente foi descartada como um entulho acadêmico. Para o jovem da bolha, a história começa no último post e termina no próximo trend. Esse presentismo radical aniquila a capacidade crítica. Sem a base dos clássicos, não há repertório para identificar a mentira disfarçada de opinião ou a manipulação travestida de fato.
A educação, outrora vista como a ferramenta de libertação do "Brasil Real" contra o "Brasil Oficial" de que falava Suassuna, tornou-se uma mercadoria de prateleira. O rigor jornalístico e a busca pela verdade, valores que defendi ao longo de décadas, são hoje atropelados pela pós-verdade. Se a leitura de um texto longo causa fadiga e o pensamento complexo gera tédio, a porta está aberta para o populismo, para o fanatismo e para a absoluta falta de respeito com a realidade dos fatos. Estamos criando uma geração de analfabetos funcionais de luxo: sabem ler as palavras, mas são incapazes de decifrar o mundo.
O Poço da Ignorância e o Desespero Final
O desfecho dessa trajetória é melancólico. O conhecimento, que deveria ser a luz a guiar a sociedade, está sendo afogado em um poço de ignorância deliberada. Não é que falta informação; há informação demais, e é justamente esse excesso que cega. A juventude, trancafiada em suas bolhas de algoritmos, perdeu a capacidade de olhar para o lado e reconhecer o outro. A verdade tornou-se subjetiva, uma questão de escolha pessoal, como se a gravidade deixasse de existir se decidíssemos não acreditar nela.
É desesperador perceber que o esforço de gerações para construir uma civilização baseada na razão e na cultura está sendo desfeito pela futilidade de um clique. O "neocolonialismo digital" denunciado indiretamente por Ariano não invade territórios com armas, mas com notificações. Ele coloniza as mentes, mata a curiosidade e enterra o desejo pela excelência intelectual. No fundo desse poço, o que resta é um vazio barulhento, onde a educação não serve para nada além de manter as engrenagens do consumo girando. O silêncio dos livros foi substituído pelo grito histérico das redes, e nesse cenário, a esperança de uma retomada clássica parece uma miragem que se apaga conforme a bateria do celular chega ao fim, com uma juventude sem futuro.
Precisamos mudar este Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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