Carmem Teresa Elias
ENTRE JARDINS, PECADOS
ENIGMAS TRÍPLICES
O Jardim das Delícias Terrenas, pintura de BoschENTRE JARDINS, PECADOS E ENIGMAS TRÍPLICES
Uma verdadeira obra prima (única, primeira, primeva), a pintura “ O Jardim das Delícias Terrenas” de Hieronymus Bosch, com data estimada entre 1500 e 1510, é constituída como um tríptico, ou seja, uma obra composta de 3 partes, muito comum na Idade Media, especialmente em peças de caráter religioso. Sempre que me vejo diante de trípticos, eu os entendo como janelas, que podem estar abertas, ou que podem nos ser fechadas, para melhor preservar os seus enigmas. Não é o caso da arte de Bosch, que mesmo exposta e escancarada sem qualquer pudor, continua a debochar da humanidade que a admira.
Encontrei-a finalmente em um dos cinco melhores museus do mundo: no Museu do Prado, em Madrid.
Para o meu gosto exagerado, o quadro era um exagero de imagens: centro espaçoso e tumultuado, ladeado por uma direita e por uma esquerda um tanto perdidas e desnecessárias ao cenário dos acontecimentos. A obra é imensa em conteúdo, detalhes e perversidades. Uma arte profana ? Uma apologia ao pecado? Uma exaltação à heresia? Arte que é arte mesmo esconde em si ao menos um enigma. Além de beleza, ou apenas superficialidade de estética, arte que é arte mesmo requer desafio, indagação, indignação e segredos a serem respondidos, ou não. Arte precisa encantar, e também perturbar. O incomunicável é a chave do significado que tanto se busca desvendar. Ousadia é ordem. Bosch tinha esse dom ao subverter o fervor religioso medieval num escândalo de obscenidades sexuais e paradisíacas, a dicotomia do carne e do espírito no exercício dos delitos prazerosos dos pecados.
Para São Tomaz de Aquino, o pecado advém de um desviar-se da reta apropriação de um bem, a desordem, de cuja busca _ ou encontro _ ressalta-se a soberba. Nessa Gênesis do mal surge, então, o Jardim do Éden e, logo depois, a queda do homem pelo pecado. Melhor dizendo, queda pelo conhecimento, o que nas religiões aloca a ignorância humana como fonte indispensável à permanência no paraíso. Esse conceito de desvio da reta, no desenho da arte, me faz pensar logo nas curvas da maçã, nas sinuosidades, nos requebros e rebolados. E se for verdade que tudo surgiu do caos, o caos deve ser muito enrolado mesmo… talvez tão enrolado quanto as voltas dos sulcos cerebrais.
Afinal, permanece o enigma: o que surgiu primeiro, o bem ou o mal? Seja lá qual for a resposta, uma coisa é certa: Bosch foi o pai do surrealismo, 400 anos antes de Salvador Dali. Ao se conhecer Bosch, os mistérios surreais caem do céu e perdem o trono.
Salvador que nos salve dos pesadelos!
Por que entre o amor e o prazer interfere tanto o triângulo com a maçã? Lembro da geometria que é possível traçar um círculo ao redor de um triângulo, instituir curvas ao redor das retas angulares , circundar o caos estejam as janelas abertas ou fechadas no centro.
Lembrei-me dos selos apocalípticos. A estética da beleza aparente e superficial não passa das capas, as tentações não vão além dos títulos, os pecados não vencem o conhecimento, os padrões do mundo não vencem o inconsciente. Entre os triângulos amorosos e a santíssima trindade, fico com o amor. Para quem consegue ir além ‘Dali’, de Salvador Dali e de Bosch, existe um Jardim de delícias, sem doutrinas, na pintura e na escrita. Só existe arte onde o amor não tem resposta; só existe amor quando o amor se despe para o enigma de ser arte única a dois
CARMEM TERESA ELIAS




COMENTÁRIOS