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Barra Mansa,26/04/2026

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    José Carlos Alcântara

    Quando o Turismo Parte

    A Criminalidade se Instala

    José Carlos Alcântara
    Quando o Turismo Parte Pôr do Sol em Armação dos Búzios

    Quando o Turismo Parte e a Criminalidade se Instala

    Por José Carlos Alcântara

    Na Costa do Sol fluminense, o fim do verão marca o início de uma dura realidade: Enquanto a alta temporada incha as cidades com oportunidades informais, a baixa temporada lança milhares de trabalhadores num vácuo de renda, transformando a região em terreno fértil para a violência.

    Em janeiro, fevereiro e março, a Costa do Sol é sinônimo de uma prosperidade efêmera, quando quiosques lotados e as praias vibrantes sustentam ambulantes, garçons e ajudantes de cozinha. Mas em abril, o silêncio das ruas vazias expõe uma estatística incômoda e recorrente: aumentam os índices de criminalidade.

    Essa não é só uma coincidência climática, mas o sintoma de uma economia dependente que por ser desestruturada é inflada e, por não ter rede de proteção se esvazia sob o peso do abandono.

    O Retrato do Desemprego Sazonal

    Cidades como Cabo Frio, Arraial do Cabo, Armação dos Búzios, São Pedro da Aldeia e Rio das Ostras, vivem sob a ditadura do turismo de sol e praia. Durante o verão, a sua população flutuante aquece um mercado informal que consegue absorver milhares de trabalhadores sem as garantias trabalhistas. Mas os números do CAGED revelam a outra face da moeda: a partir de abril, esses postos de trabalho desaparecem.

    Este depoimento de Marcos Vinícius, de 34 anos e morador de São Pedro da Aldeia, sintetiza o drama: "Em abril não tem nada. As contas continuam chegando e o desespero bate. Tem gente que arruma um bico, mas tem gente que faz coisa errada". O habitual desemprego sazonal não é apenas um problema econômico; é o viés da vulnerabilidade social.

    A Equação Perversa: Menos Renda, Menos Policiamento

    A criminalidade aumenta na baixa temporada e responde por uma combinação explosiva. Primeiro, o desemprego tira a subsistência. Segundo, a ausência de políticas publicas impede a migração para outros setores. Terceiro, e talvez o mais grave, o Estado retira o reforço policial justamente quando aumenta a tensão social.

    Como define a socióloga Ângela Nunes (UFF): "O Estado se prepara para o turista, não para o morador". Quando o visitante parte, o policiamento ostensivo encolhe, criando o cenário ideal para furtos e roubos.

    Dados indicam que, enquanto no verão predominam crimes contra turistas, nos meses frios o alvo passa a ser o comércio local e as residências de veranistas, muitas vezes com o envolvimento de moradores locais desassistidos.

    Estratégias para Romper o Ciclo da Vulnerabilidade

    Para superar esse paradoxo — onde se arrecada muito no verão e se investe pouco no morador —a solução exige políticas sociais estruturantes:

    1. Diversificação Econômica: Criação de centros de capacitação para setores que não dependam do sol, como manutenção náutica, tecnologia e turismo ecológico/cultural.

    2. Calendário de Eventos: Incentivo ao turismo de congressos e esportes na baixa temporada para manter a demanda por mão de obra.

    3. Policiamento de Proximidade: Implementação de bases fixas e policiamento comunitário que não dependam do fluxo de turistas para existir.

    4. Economia Solidária: Fomento a cooperativas de prestadores de serviços para garantir as reservas financeiras coletivas nos meses de entressafra.

    Governança Regional: O Caminho da Solução

    A fragmentação administrativa entre as prefeituras da Costa do Sol agrava o problema. É urgente a criação de um Consórcio Regional de Desenvolvimento Social. É preciso planejar a região como um organismo único, onde a segurança pública seja entendida como o resultado de uma economia que funciona para todos, o tempo todo.

    Enquanto a gestão pública não atuar para minimizar os efeitos do crescimento sazonal dessa economia, a história se repetirá: o sol se põe, os holofotes se apagam e os trabalhadores ficam à deriva.

    Aproveitar a beleza de um lugar, exige ter a sensação de que estamos seguros. Viver em um constante estado de alerta é uma experiência que muda tudo.

    José Carlos Alcântara foi Secretário Geral - AGEBRÁS Associação Brasileira de Agentes de Exportação, Rio de Janeiro; Consultor Técnico - FUNCEX Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Diretor de Marketing - BRASIL EXPORT New York, Dallas, Atlanta, Miami, Los Angeles e Chicago; Diretor Superintendente - ABC TRADING Comércio Exterior, Rio de Janeiro; Vice-President - The First National Bank of New York (SAFRA, NY-USA); Assessor Internacional da Presidência - ACRJ Associação Comercial do Rio de Janeiro; Redator de editoriais e artigos no Jornal Primeira Hora, Armação dos Búzios.




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