MK - Marcelo Kieling
O Grito Abafado nas Caravelas:
A Gênese do Nosso Ódio
O Grito Abafado nas Caravelas:
A Gênese do Nosso Ódio
O Brasil não nasceu de um parto natural; foi uma cesariana malfeita, executada a seco sob o ranger das madeiras das caravelas. Quando as âncoras portuguesas rasgaram o leito do mar em 1500, não trouxeram apenas espelhos e cruzes, mas o rascunho de um projeto de domínio que, cinco séculos depois, aindaO dita quem tem o direito de respirar. A crônica da nossa violência é uma linha contínua, um fio de prumo que desce do mastro principal de Cabral e termina, hoje, no corpo estendido de uma mulher no asfalto de uma metrópole, jogada de uma varanda do décimo terceiro andar de um prédio de luxo ou no chão batido de um sertão esquecido.
O feminicídio, essa palavra dura que o Direito precisou cunhar para dar nome ao horror, não é um crime de paixão. É um crime de propriedade. E a ideia de homens da propriedade sobre o outra, que para estes indivíduos, é o pecado original da nossa formação. Desde que o primeiro invasor olhou para a terra e para os corpos que nela habitavam e disse "isto é meu", estabeleceu-se o divórcio entre o Brasil e o absoluto respeito à diversidade. O que vivemos hoje é a metástase de um tumor plantado na certidão de nascimento da nação da terra Brasilis.
A relação entre o feminicídio e a sociedade reacionária que emerge das sombras não é acidental; é simbiótica. Vivemos um momento em que o ódio foi institucionalizado, com muita repercussão e apoio de vários integrantes do parlamento, onde a xenofobia, o racismo e a discriminação deixaram de ser sussurros de alcova para se tornarem gritos de púlpito e de palanque. Existe uma parcela radicalizada, muitas vezes escudada por uma interpretação distorcida e seletiva da fé evangélica, que busca restaurar uma violenta hierarquia medieval. Para esses extremistas, a diversidade é uma ameaça à "ordem natural", e o corpo feminino é o território final a ser pacificado.
É preciso sentir o cheiro dessa história. É o cheiro do salitre das naus misturado ao suor do medo. Quando o colonizador chegou no Brasil, ele impôs sua língua, sua religião e sua estética, e não apenas ignorou o "outro"; ele tentou aniquilá-lo em ataques genocidas nas tribos habitantes. O racismo que hoje impede uma mulher negra de subir no elevador social é o mesmo que a torna o alvo preferencial do feminicídio. As estatísticas são cruéis e não mentem: a violência contra a mulher no Brasil tem cor, e essa cor é o resultado de uma abolição que nunca se completou. O corpo da mulher negra e indígena continua sendo visto por essa mentalidade reacionária como um objeto de descarte, uma herança da senzala e do estupro colonial que nunca foi devidamente processada pela nossa consciência coletiva.
A polarização extremista que vemos hoje atua como um catalisador. Ao demonizar o feminismo e as pautas de gênero, esses grupos reacionários dão um salvo-conduto moral para o agressor. Quando se prega que a mulher deve ser submissa por um desígnio divino, o passo seguinte é a legitimação da violência como método de correção. O feminicídio é o ápice dessa pirâmide de exclusão. Ele começa no comentário racista no WhatsApp, passa pela piada xenofóbica contra o imigrante ou o nordestino, e deságua no gatilho puxado ou na lâmina empunhada contra a companheira que ousou dizer "não".
A xenofobia, por sua vez, revela nossa face mais hipócrita. Um país construído por mãos imigrantes e braços escravizados agora se fecha em um nacionalismo tacanho, que rejeita o diferente enquanto idolatra o colonizador. Esse fechamento mental é o mesmo que nutre o machismo. O reacionário tem pavor da fluidez, da liberdade e, acima de tudo, da autonomia feminina. Para ele, o mundo deve ser um mapa estático de 1500, onde o homem branco e cristão detém o sextante e decide o rumo de todas as vidas.
O abandono do respeito pela diversidade, mencionado como um marco desde a invasão portuguesa, é o que nos trouxe a este deserto ético. Perdemos a capacidade de enxergar a humanidade no espelho do outro. O feminicídio no Brasil é, portanto, um crime político. É a resistência desesperada de uma estrutura patriarcal e colonial que se recusa a morrer, e que usa o fundamentalismo religioso como escudo para suas atrocidades.
Não haverá paz para as mulheres enquanto não houver um acerto de contas com o nosso passado. Enquanto o Brasil não reconhecer que a invasão de 1500 foi o marco inicial de um genocídio que se transmuta e se renova, continuaremos a enterrar nossas filhas, mães e irmãs sob o peso de uma tradição que confunde amor com posse e fé com opressão.
O fecho dessa crônica não pode ser uma esperança vazia. Precisa ser um chamado ao rigor. O combate ao feminicídio passa, obrigatoriamente, pelo combate ao racismo e ao reacionarismo que sequestrou o debate público. É preciso retomar o respeito pela diversidade como quem retoma uma terra roubada. Somente quando o Brasil deixar de ser uma colônia mental de si mesmo, poderemos olhar para as mulheres deste país e garantir que o seu destino não será mais uma cruz fincada no solo de uma história que começou com o pé esquerdo no litoral da Bahia
O atual cenário de polarização reacionária e radicalismo religioso é um legitimador moral da agressão..
Precisamos mudar este Brasil. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





COMENTÁRIOS