Marcelo Kieling
O Fim do Ano Velho no Palanque Novo
Um ato de retrocesso no Ano Novo Político
O Fim do Ano Velho no Palanque Novo
Um ato de retrocesso no Ano Novo Político
Era uma vez o 1º de janeiro no Brasil, dia em que o país acordava com ressaca dupla: a do espumante da virada e a do novo presidente jurando sobre a Constituição, sob o sol inclemente de Brasília. Imagine a cena: fogos ainda ecoando nos céus, famílias desmontando as mesas de leitoa à pururuca, e ali, no Planalto, uma multidão de ternos engomados e bandeiras tremulando, enquanto o mandatário saía do palácio anterior para entrar no novo. O ar cheirava a promessa e a política, misturado ao cheiro de quentão requentado nas barracas improvisadas ao redor dos Ministérios. Aquela data, feriado sagrado de renascimento coletivo, virava palco de transição: o velho ano morria, o novo governo nascia. Uma irônica poesia pronta, sem qualquer esforço deste cronista.
Agora, com a canetada constitucional, esse tradicional ritual acaba. A partir de 2025, presidentes tomam posse em 5 de janeiro, governadores em 6. O texto oficial fala em "ajustar a transição administrativa, reduzir conflitos com feriados e facilitar logística". Absurdas palavras técnicas, de quem nunca sentiu o peso simbólico de um dia 1º. Não é só mudança de data; é o desmonte de um símbolo. O Brasil, terra de sincretismos e atrasos, sempre precisou de metáforas para colar os cacos desta reacionária realidade. O Ano Novo como metáfora perfeita do poder renovado: página virada, taça erguida, hino entoado. E agora? Uma quinta-feira qualquer, dia 5, com o comércio já reaberto, o trânsito engarrafado na Esplanada e as delegações estaduais chegando de van fretada, sem o glamour do feriado.
Pense nos presidentes que juraram no 1º de janeiro. Getúlio Vargas, em 1951, emergindo das cinzas da ditadura do Estado Novo para um mandato democrático – o dia 1º selava o fim de uma era sombria. Juscelino Kubitschek, em 1956, prometendo 50 anos em 5, com o país ainda lambendo as feridas da deposição de Vargas; o feriado amplificava a euforia de um Brasil que sonhava com Brasília. Até os mais controversos, como Collor em 1990, posando com a de um rapazola modernizador em meio à festa popular, ou Lula em 2003, erguendo o punho sob aplausos que ecoavam da praia de Copacabana à Praça dos Três Poderes. Cada posse era um espelho do momento: o otimismo ingênuo da sociedade, uma tensão mal disfarçada, ou o verdadeiro cheiro azedo de uma eterna crise e a certeza de mais um parlamento cheio de oportunistas fantasiados de políticos. O 1º de janeiro forçava o país a pausar, a fingir unidade por 24 horas, antes do retorno à briga cotidiana contra a política secular de parlamentares oriundos das famílias que dominam os palácios desde 1500 com a modena manutenção das “Capitanias Hereditárias”.
A justificativa oficial soa razoável, à primeira vista. Feriado nacional significa aviões lotados, hotéis caros, segurança triplicada para conter o risco de tumultos em dia de bebedeira coletiva. Governadores precisavam viajar de seus estados para Brasília, e o dia 1º complicava tudo: aeroportos parados, estradas com viaturas da PRF priorizando o Réveillon. A transição administrativa, dizem, ganha fôlego: o presidente eleito tem quatro dias extras para montar equipe, assinar portarias e evitar o vácuo de poder. É o pragmatismo da eficiência, ecoando o discurso de modernização que o Brasil adora repetir desde o Império. Mas e o custo simbólico? Em um país onde o calendário é povoado de feriados que param a nação – Corpus Christi, Nossa Senhora Aparecida, Independência –, por que não preservar o 1º de janeiro como o dia de alguma esperança política? Trocar por um 5 de janeiro genérico é como trocar o Carnaval por uma convenção de auditores ou contadores: funcional, mas sem qualquer alma.
Não sou saudosista incurável. Reconheço os tropeços do ritual antigo. Lembra de Dilma Rousseff em 2015? Posse sob vaias e o fantasma do impeachment pairando, com o feriado servindo de paliativo para a polarização que explodiria meses depois. Ou do golpista Bolsonaro em 2019, jurando com o braço erguido em saudação militar, enquanto o Brasil ainda digeria o 13 a zero das urnas – o dia 1º virava ringue ideológico, com os radicalistas bolsonaristas e petistas se estranhando nas redes antes mesmo do café da manhã. O feriado, longe de unir, amplificava divisões: famílias divididas à mesa de ceia discutiam o novo presidente como se fosse o prato principal. A mudança, nesse sentido, pode ser um alívio logístico e psicológico. Sem o peso do Ano Novo, a posse vira um puro ato administrativo, menos propenso a virar circo midiático. Governadores, em 6 de janeiro, assumem nos palácios estaduais sem precisar de aviões da FAB ou do Vorcaro, focando no que importa? Será que irão tratar de ajustes do orçamento, reestruturação de secretarias, ampliação do atendimento na saúde pública, estabelecer novas linhas da segurança pública e no estabelecimento de educação em tempo integral e alianças no Legislativo para utilização dos recursos públicos em ações do desenvolvimento social e nas estruturas municipais.
Mas aqui vai os meus contrapontos, porque a crônica sem tensão é texto de assessoria. Essa alteração revela uma miopia maior da classe política: a desconexão com o a verdade do imaginário popular. O Brasil não é Suíça, onde transições são cartoriais e discretas. Somos nação de efemérides populares, onde datas marcam a alma coletiva – 7 de setembro com desfiles, 15 de novembro com discursos esquecíveis. Tirar a posse do 1º de janeiro é amputar um pedaço dessa narrativa compartilhada. O que sobra? Um 5 de janeiro que ninguém celebrará, exceto talvez os lojistas reabrindo as portas. E se o novo presidente chegar com chuvas torrenciais, como costuma acontecer em Brasília no verão? Ou com uma greve de aeroportuários? A logística "facilitada" pode virar caos sem o escudo do feriado.
Além do prático, há o político. Mudanças constitucionais como essa, aprovadas por maioria absoluta, raramente são neutras. Quem ganha com o adiamento? O establishment que odeia o espetáculo popular, preferindo cerimônias enxutas, televisionadas sem multidão. Menos risco de protestos espontâneos, menos chance de um drone sobrevoando com faixa irônica. Governadores, em 6 de janeiro, escapam do holofote nacional, focando em seus feudos regionais, para atender um bando de idolatros do nada. É uma vitória da burocracia ou “BURROCRACIA” sobre o simbólico, do "gestão eficiente" sobre o "povo na rua".
O Brasil precisa avançar entre o equilibra razão e emoção, não quando esteriliza o ritual público.
Volto à cena inicial, mas invertida. Dia 5 de janeiro de 2027, digamos. O presidente eleito desce do avião em Brasília às 10h, com céu nublado, o trânsito lento na EPTG. No Planalto, uma plateia menor: diplomatas, ministros saídos das malas, jornalistas com laptop no colo e um pequeno público de fanáticos eleitores. O juramento é transmitido ao vivo, mas sem festa e sem o fervor do Réveillon. Em casa, o brasileiro comum já está no ponto de ônibus, pensando no IPTU atrasado e nas contas não pagas, e sem qualquer sentido na "nova era". O ano começou há quatro dias, mas a posse, adiada, parece um apêndice. Que imagem fica? A de um país que, como sempre em retrocesso e sem qualquer respectiva que sempre adia um virtual renascimento.
No fundo, essa mudança é espelho do Brasil atual: reacionário, prático demais para ser poético, recheado de um ar de retrocesso, ineficiente demais para ser memorável. Precisamos de mais, não menos, símbolos que nos unam – mesmo que por um dia. O 1º de janeiro era imperfeito, caótico, humano e memorável. O 5 de janeiro promete ordem, mas entrega frieza. Que o novo calendário sirva de lição: transições não são só atos administrativos; são atos de uma fé coletiva. Senão, viramos nação de calendários frios, sem a emoção da faísca de uma meia-noite para iluminar um novo caminho.
Precisamos mudar este cenário deste cenário desta política desastrosa. Vamos?
Ferramentas de IA foram utilizadas na elaboração deste conteúdo.Todo o conteúdo foi revisado por humanos.





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