Carmem Teresa Elias
LITERATURA COM MÃOS NO CHÃO
ASAS PELA MEMÓRIA DO MUNDO
LITERATURA COM MÃOS NO CHÃO E ASAS PELA MEMÓRIA DO MUNDO
O livro “O Escrevente do Chão” de Diego Mendes Souza chega a mim em abril. Abro-o e sorvo-o em um dia de outono entre a claridade da manhã e a névoa da tarde. “O Escrevente do Chão” chega “na explosão de abril”, como diz o próprio autor em seu Refúgio.
Enquanto leio, observo o céu vermelho sobre a praia na mesma hora em que a poesia retrata “o sangue cansado do tempo”. Ler me faz levantar voos no horizonte do sempre e mergulhar na raiz escura que cava a eternidade na saudade do futuro.
O entendimento do mundo requer visão nítida sobre a luz e sobre a escuridão. A literatura tem essa função também: revelar a vida por ângulos distintos do lugar comum, dos estereótipos e do previsível.
A poesia de Diego Mendes Souza transita entre os clássicos e a soberania da seriedade. Traz-nos o questionamento filosófico, tão carente nesse século XXI. Lembra-nos que em versos nada se perde no escape do tempo. Baudelaire me sorri em “Sábado Magro”, quando Diego conclama: “raparigas e rapazes/ beijai-vos, amai-vos/ que o Tempo é um silêncio em ruínas/sem a cor do sonhar.” Ao fundo o escritor francês Baudelaire (1821- 1867). me responde sussurrando: “ Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra, é imperativo embriagar-se sem descanso.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude.” É, faltam poesia e virtude do século XXI. Há sede de poesia e virtude no homem contemporâneo. Que a poesia nos salve!
Mais algumas páginas e é em “Fonte” que Diego Mendes Souza esfola a alma da poesia: o poema se completa por inteiro, sem medo e sem piedade, cumprindo sua trajetória: “ o sonho de navegar/ no oculto do mundo/ onde o abismo da alma / exala a vertigem/ e o chão falta/ para a queda ambígua”.
Antes de as palavras tornarem-se anjos e escreverem o silêncio, a obra conduz a uma visita imemorial ao pertencimento: o chão, a terra, a identidade. Diego Mendes Sousa é autor piauiense do Parnaíba, que decanta sua origem natal mas também nos transporta para sua bagagem de leituras universais.
Viver a poesia é uma travessia pela tríade da mutação. São três os rumos da vida e do tempo no livro: o chão, a migração e o exílio. “O Escrevente do Chão” recria-se em metáforas e Imagens para nos revelar como se consegue escrever o chão em movimento, como dar dinamismo para o terreno do fixo e como fazer parar a que jamais cessa.
Os poemas são carregados de enigmas: mostram o inexorável, o drama do tempo, o amadurecimento e o aprendizado do encantamento e do absurdo do tecer sentidos de sentimentos. Em “Escrevente do Chão” a razão e a intuição desbravam-se juntas.
À medida que leio visualizo um paradoxo: pés no chão e as sandálias aladas de Hermes. Desvendar é o desfio. Fincamo-nos ao chão ou nos movimentamos ? Afinal, qual é o lugar do poeta? Qual sua morada? Onde levam seus passos além da dor? A resposta habita o não-lugar onde a palavra se aloja entre o espanto e o instante. A poesia encontra o seu domínio: O chão é a poesia; o poema é o ente que se escreve e a metapoesia define o autor.
CARMEM TERESA ELIAS




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