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Barra Mansa,20/04/2026

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    Carmem Teresa Elias

    LITERATURA COM MÃOS NO CHÃO

    ASAS PELA MEMÓRIA DO MUNDO


    LITERATURA COM MÃOS NO CHÃO

    LITERATURA COM MÃOS NO CHÃO E ASAS PELA MEMÓRIA DO MUNDO

    O livro “O Escrevente do Chão” de Diego Mendes Souza chega a mim em abril. Abro-o e sorvo-o  em um dia de outono entre a claridade da manhã e a névoa da tarde. “O Escrevente do Chão” chega “na explosão de abril”, como diz o próprio autor em seu Refúgio.

    Enquanto leio, observo  o céu vermelho sobre a praia na mesma hora em que a poesia retrata “o sangue cansado do tempo”. Ler me faz levantar voos no horizonte do sempre e mergulhar na raiz escura que cava a eternidade na saudade do futuro.

    O entendimento do mundo requer visão nítida sobre a luz e sobre a escuridão. A literatura tem essa função também: revelar a vida por ângulos distintos do lugar comum, dos estereótipos e do previsível.

    A poesia de Diego Mendes Souza  transita entre os clássicos e a soberania da seriedade. Traz-nos o questionamento filosófico, tão carente nesse século XXI. Lembra-nos que em versos nada se perde no escape do tempo. Baudelaire me sorri em “Sábado Magro”, quando Diego conclama: “raparigas e rapazes/ beijai-vos, amai-vos/ que o Tempo é um silêncio em ruínas/sem a cor do sonhar.”  Ao fundo o escritor francês Baudelaire (1821- 1867).  me responde sussurrando: “ Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra, é imperativo embriagar-se sem descanso.

    Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude.” É, faltam poesia e  virtude do século XXI. Há sede de poesia e virtude no homem contemporâneo. Que a poesia nos salve!

    Mais algumas páginas e  é em “Fonte” que Diego Mendes Souza esfola  a alma da poesia: o poema se completa por inteiro, sem medo e sem piedade, cumprindo sua trajetória: “ o sonho de navegar/ no oculto do mundo/ onde o abismo da alma / exala a vertigem/ e o chão falta/ para a queda ambígua”.

    Antes  de as palavras tornarem-se anjos e escreverem o silêncio, a obra conduz a uma visita imemorial ao pertencimento: o chão, a  terra,  a identidade. Diego Mendes Sousa é autor piauiense do Parnaíba,  que decanta sua origem natal mas também nos transporta para sua bagagem de leituras universais.

    Viver a poesia é uma travessia pela tríade da mutação. São três os rumos da vida e do tempo no livro: o chão, a migração e o exílio. “O Escrevente do Chão”  recria-se em metáforas e  Imagens para nos revelar  como se consegue  escrever o chão em movimento, como dar dinamismo para  o terreno do fixo e como fazer parar a que jamais cessa.

    Os poemas são carregados de enigmas: mostram o inexorável, o drama do tempo, o amadurecimento e o aprendizado do encantamento e do absurdo do tecer sentidos de sentimentos. Em “Escrevente do Chão” a razão e a intuição desbravam-se juntas.

    À medida que leio visualizo um paradoxo: pés no chão  e as sandálias aladas de Hermes. Desvendar é o desfio. Fincamo-nos  ao chão ou nos movimentamos ? Afinal, qual é o lugar do poeta? Qual sua morada? Onde levam seus passos além da dor? A resposta habita o não-lugar onde  a palavra se aloja entre o espanto e o instante. A poesia encontra o seu domínio: O chão é a poesia; o poema é o ente que se escreve e a metapoesia define o autor.

    CARMEM TERESA ELIAS

     



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