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Barra Mansa,18/04/2026

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    Carmem Teresa Elias

    O OUTRO LADO DO ABISMO DOS HOMENS

    Um poema será que ainda pode salvar o homem do seu abismo?

    Solidão: a dor silenciosa de não ser visto. Por Meraldo Zisman - CG
    O OUTRO LADO DO ABISMO DOS HOMENS

    O OUTRO LADO DO ABISMO DOS HOMENS

    Havia uma conversa na mesa. O tema:  opinião. Pensamento crítico próprio, capacidade de discernimento, raciocínio lógico isento de vieses e ideologias. Capacidade de decisão. A coerência de caráter e compostura.

    Corre março; uma mês para falar de mulher como tema obrigatório. Alguém mencionou: quatro mulheres assassinadas por dia.

    Mas a questão não era só essa. Vai muito além.

    Em fases em que a violência estúpida se torna  gratuita e se passa a conviver belicamente por razão nenhuma, uma pausa se faz necessária entre o que acontece no mundo e no dia a dia de qualquer João ninguém. A ferocidade com que se exterminam grupos inteiros sem qualquer decoro em guerras imundas não é diferente das agressões a que temos notícias em nossos pequenos quadrados de mundo contra mulheres, contra crianças, animais e tantas outras situações.

    O ódio banalizou-se. Pior, cresceu doentiamente como modus operanti social, porém jamais civilizatório. A marca do século XXI é o extermínio simplesmente porque não se gosta do outro.

    Enquanto nações duelam entre si sem motivo, o ser humano comum duela com seu par, seja companheiro, familiar ou vizinho. Leis internacionais não valem mais nada. Vínculos amorosos e familiares também não. O macro e o micro universos humanos estão ambos em sintonia: cada um por si e contra o outro ou outros ou todos.

    Aliás, o que me parece mesmo é que existe uma multidão daqueles que odeiam a si mesmos e no ápice obscuro do narcisismo odeiam no outro tudo aquilo que veem em si mesmos.

    O ódio é um paradoxo. Transforma-se o odiento   na coisa odiada  por desvirtude do muito odiar. Uma brincadeira - de mau gosto e realismo parodiando Camões.

    Aprecio pessoas com capacidade de opinião e avaliação crítica do que veem, observam e compreendem. No meio do caos e isentos de rigidez partidária, ou isentos de falsas neutralidades, ou ainda lúcidos até para mudar de lado na rivalidade patológica gratuita e condicionada, alguns homens ainda preservam algo de moral e conduta ética.

    Na borda do abismo, alguns lúcidos e equilibrados conseguem não afundar na lama alheia. Um Primeiro Ministro ali, um ex-funcionário demissionário mais ali, alguma negativas de coalizões suicidas mais acolá. De repente, mesmo que a longas distâncias uma sobrevivente rede de humanidade toca a sintonia da sanidade. Falar a verdade é tão raro atualmente. Os que ainda conseguem são sobreviventes da escravidão silenciosa que sufoca a humanidade entre telas, redes, teias de barbáries e bestialidades.

    Longe dos olhares sarcásticos e dos segredos prometidos e jamais cumpridos, vez por outra em raros momentos alguém consegue expressar perdão num relacionamento e dar as mãos num caminhar sereno.

    Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade em A Rosa do Povo. Preciso de um poema. Um poema pode salvar o mundo?

    O poeta não mais responde. Deixou escrito:

    “A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, 
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, 
na tua fria vontade de resistir.

    Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.

    Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.”

    Um poema será que ainda pode salvar o homem do seu abismo?

    Carmem Teresa Elias

     



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