Carmem Teresa Elias
O OUTRO LADO DO ABISMO DOS HOMENS
Um poema será que ainda pode salvar o homem do seu abismo?
O OUTRO LADO DO ABISMO DOS HOMENS
Havia uma conversa na mesa. O tema: opinião. Pensamento crítico próprio, capacidade de discernimento, raciocínio lógico isento de vieses e ideologias. Capacidade de decisão. A coerência de caráter e compostura.
Corre março; uma mês para falar de mulher como tema obrigatório. Alguém mencionou: quatro mulheres assassinadas por dia.
Mas a questão não era só essa. Vai muito além.
Em fases em que a violência estúpida se torna gratuita e se passa a conviver belicamente por razão nenhuma, uma pausa se faz necessária entre o que acontece no mundo e no dia a dia de qualquer João ninguém. A ferocidade com que se exterminam grupos inteiros sem qualquer decoro em guerras imundas não é diferente das agressões a que temos notícias em nossos pequenos quadrados de mundo contra mulheres, contra crianças, animais e tantas outras situações.
O ódio banalizou-se. Pior, cresceu doentiamente como modus operanti social, porém jamais civilizatório. A marca do século XXI é o extermínio simplesmente porque não se gosta do outro.
Enquanto nações duelam entre si sem motivo, o ser humano comum duela com seu par, seja companheiro, familiar ou vizinho. Leis internacionais não valem mais nada. Vínculos amorosos e familiares também não. O macro e o micro universos humanos estão ambos em sintonia: cada um por si e contra o outro ou outros ou todos.
Aliás, o que me parece mesmo é que existe uma multidão daqueles que odeiam a si mesmos e no ápice obscuro do narcisismo odeiam no outro tudo aquilo que veem em si mesmos.
O ódio é um paradoxo. Transforma-se o odiento na coisa odiada por desvirtude do muito odiar. Uma brincadeira - de mau gosto e realismo parodiando Camões.
Aprecio pessoas com capacidade de opinião e avaliação crítica do que veem, observam e compreendem. No meio do caos e isentos de rigidez partidária, ou isentos de falsas neutralidades, ou ainda lúcidos até para mudar de lado na rivalidade patológica gratuita e condicionada, alguns homens ainda preservam algo de moral e conduta ética.
Na borda do abismo, alguns lúcidos e equilibrados conseguem não afundar na lama alheia. Um Primeiro Ministro ali, um ex-funcionário demissionário mais ali, alguma negativas de coalizões suicidas mais acolá. De repente, mesmo que a longas distâncias uma sobrevivente rede de humanidade toca a sintonia da sanidade. Falar a verdade é tão raro atualmente. Os que ainda conseguem são sobreviventes da escravidão silenciosa que sufoca a humanidade entre telas, redes, teias de barbáries e bestialidades.
Longe dos olhares sarcásticos e dos segredos prometidos e jamais cumpridos, vez por outra em raros momentos alguém consegue expressar perdão num relacionamento e dar as mãos num caminhar sereno.
Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade em A Rosa do Povo. Preciso de um poema. Um poema pode salvar o mundo?
O poeta não mais responde. Deixou escrito:
“A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.”
Um poema será que ainda pode salvar o homem do seu abismo?
Carmem Teresa Elias




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