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Barra Mansa,18/04/2026

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    Moisés Lauriano de Santana

    Entre extremos e silêncios, a democracia brasileira sob tensão

    Entre extremos e silêncios,


    Entre extremos e silêncios, a democracia brasileira sob tensão

    Entre extremos e silêncios, a democracia brasileira sob tensão

    Moisés Lauriano de Santana

    O Brasil se aproxima das eleições de 2026 sob o peso de um paradoxo que desafia a própria essência da vida democrática: nunca se falou tanto de política, e, ainda assim, nunca foi tão difícil dialogar sobre ela. O debate público, que deveria funcionar como espaço de construção coletiva, vem sendo progressivamente comprimido por uma lógica de confronto permanente. A política deixou de ser apenas tema; tornou-se identidade, pertencimento e, em muitos casos, fronteira emocional.

    Nesse ambiente, a histórica vocação plural da democracia brasileira cede espaço a um cenário fragmentado, marcado por trincheiras ideológicas cada vez mais rígidas. Direita e esquerda, que deveriam operar como expressões legítimas de visões distintas dentro do jogo democrático, passam a se organizar como polos excludentes. O adversário deixa de ser um interlocutor político e passa a ser percebido como ameaça simbólica, incompatível com a própria ideia de país.

    Esse deslocamento não é superficial. Ele altera a gramática do debate público. Argumentos são substituídos por rótulos, propostas cedem lugar a narrativas simplificadas e o diálogo é substituído pela reafirmação de convicções prévias. Não se trata apenas de divergência, mas de um processo progressivo de impermeabilização das posições, no qual ouvir o outro se torna quase um ato de concessão.

    A amplificação desse fenômeno pelas redes digitais intensifica sua profundidade. Estruturas algorítmicas tendem a privilegiar conteúdos de maior impacto emocional, reforçando indignações, acelerando reações e consolidando bolhas informacionais. A discordância, nesse ambiente, raramente evolui para reflexão; tende a se cristalizar em antagonismo contínuo.

    O risco central, nesse contexto, não está apenas na polarização em si, mas na incapacidade de administrá-la dentro dos limites institucionais da democracia. O dissenso é elemento constitutivo do regime democrático; a hostilidade permanente, não. Quando o espaço do meio-termo desaparece, enfraquece-se também a possibilidade de construção de consensos mínimos, indispensáveis à governabilidade, à produção legislativa e à formulação de políticas públicas de longo prazo.

    O Brasil chega, assim, a 2026 diante de um desafio que transcende o resultado eleitoral. Trata-se de reconstruir as bases do diálogo público, resgatar a legitimidade do dissenso e reafirmar que a democracia não se sustenta na eliminação do outro, mas na convivência institucional entre diferenças.

    Essa polarização, contudo, não é um fenômeno recente ou isolado. Ela resulta de um processo histórico acumulativo, marcado por crises institucionais sucessivas, escândalos de corrupção, rupturas de confiança e frustrações sociais reiteradas. Cada crise não apenas abalou estruturas formais, mas corroeu, de forma gradual, a confiança do cidadão na política como instrumento legítimo de transformação.

    Nesse percurso, os partidos políticos deixaram de desempenhar, em muitos casos, seu papel clássico de mediação programática entre demandas sociais e ação estatal. Em vez de organizarem projetos consistentes de país, passaram a operar como polos de identidade, estruturando pertencimentos simbólicos e afetivos. A política, assim, desloca-se parcialmente do campo racional para o campo emocional.

    Esse processo impacta diretamente o comportamento do eleitor. A escolha política, antes orientada por programas, propostas e projetos de governo, passa a ser mediada por narrativas simplificadas, lealdades identitárias e percepções frequentemente moldadas fora do campo estritamente factual. O voto deixa de ser apenas decisão racional e passa a funcionar também como expressão de identidade.

    Nesse contexto, intensifica-se a construção do “outro” como antagonista absoluto. O adversário político não é apenas alguém com quem se discorda, mas alguém cuja visão é percebida como incompatível com a própria ideia de sociedade. Esse movimento fragiliza o espaço comum necessário à convivência democrática e dificulta a formação de consensos mínimos.

    O resultado é um ambiente político tensionado, no qual o debate se empobrece e a complexidade dos problemas nacionais é reduzida a disputas binárias. Problemas estruturais, como desigualdade, desenvolvimento econômico, sustentabilidade e segurança institucional, passam a ser tratados sob lógicas simplificadoras, comprometendo a capacidade de formulação de soluções duradouras.

    Sob a ótica democrática, é importante destacar que o conflito de ideias não apenas é legítimo, mas essencial. Democracias não se sustentam na uniformidade, mas na organização institucional das divergências. O dissenso qualificado é um ativo democrático, pois permite o confronto de perspectivas e a construção de soluções mais equilibradas.

    O problema emerge quando o dissenso se degrada em deslegitimação do outro. Nesse estágio, não se debate mais a ideia, mas a própria legitimidade de quem a defende. O adversário deixa de ser reconhecido como parte do jogo democrático e passa a ser tratado como obstáculo existencial. A política, então, deixa de ser mediação e se transforma em disputa de eliminação simbólica.

    Essa transformação tem efeitos diretos sobre o funcionamento institucional. A política passa a operar em lógica de campanha permanente, na qual a disputa pela narrativa se sobrepõe à capacidade de governar. Decisões estruturais são adiadas ou subordinadas a cálculos de curto prazo, enquanto a mobilização constante de bases se torna prioridade.

    Nesse ambiente, vencer uma eleição deixa de significar a obtenção de mandato para governar e passa a ser interpretado como autorização para impor uma visão unilateral. A alternância de poder, em vez de promover continuidade institucional, tende a reiniciar ciclos de conflito.

    A radicalização discursiva também empobrece o debate público. A complexidade é substituída pela simplificação, nuances são descartadas e a escuta se torna cada vez mais rara. O espaço do meio-termo, essencial à democracia funcional, torna-se residual. Sem ele, desaparece a possibilidade de pactos mínimos para enfrentamento de desafios estruturais.

    Diante disso, o problema não reside no conflito em si, mas na forma como ele é conduzido. Quando a política abdica de sua dimensão construtiva e se orienta pela lógica da aniquilação simbólica do outro, a democracia passa a operar sob risco de fragilização progressiva.

    Resgatar o dissenso democrático implica reconhecer o outro como presença legítima no espaço público, e não como erro a ser eliminado. Sem essa premissa, não há debate, apenas ruído. E democracias baseadas em ruído tendem a produzir respostas insuficientes aos seus próprios desafios.

    Nesse cenário, o Direito Eleitoral brasileiro assume papel central como garantidor da integridade do processo democrático. Sua função já não se limita à regularidade formal das eleições, mas se expande para a proteção do ambiente informacional em que a vontade do eleitor é formada.

    As instituições eleitorais passam a atuar em um campo ampliado, atravessado pela digitalização da política e pela disseminação de desinformação em escala. Estratégias que mobilizam emoções como medo, indignação e ressentimento tornam-se ferramentas de disputa, com alto poder de influência sobre o debate público.

    Esse contexto impõe ao Direito Eleitoral um desafio delicado: equilibrar liberdade de expressão e proteção da integridade do processo democrático. Intervenções excessivas podem gerar acusações de censura e corroer a confiança institucional; omissões podem permitir a expansão da desinformação e comprometer a legitimidade do resultado eleitoral.

    Trata-se de um campo de alta complexidade, no qual cada decisão institucional possui impactos diretos sobre a percepção pública de legitimidade democrática. O Direito Eleitoral, assim, não é apenas árbitro do processo, mas também fiador de sua integridade substancial.

    Paralelamente, a sociedade oscila entre dois polos: o engajamento intenso e o desencanto crescente. De um lado, militâncias organizadas e altamente mobilizadas; de outro, cidadãos que se afastam por não se reconhecerem nas opções políticas disponíveis ou por perceberem a política como espaço inacessível.

    Essa dualidade revela um vazio cívico preocupante. Democracias não se fragilizam apenas pelo excesso de conflito, mas também pela ausência de participação qualificada. Quando o engajamento se torna acrítico ou quando a participação se dissolve, enfraquecem-se os mecanismos de controle social e representação.

    Romper esse ciclo exige mais do que participação eleitoral formal. Exige reconstrução de confiança, fortalecimento da educação política e ampliação dos espaços de debate público qualificado.

    E é justamente nesse ponto que reside o maior risco e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade. A polarização expõe tensões reais da sociedade, que não podem ser ignoradas. O desafio consiste em transformar esse conflito em elaboração coletiva, deslocando o debate da lógica da desqualificação para a lógica da argumentação.

    Isso implica reconstruir pontes institucionais e sociais, restabelecendo o reconhecimento mútuo da legitimidade do outro e a valorização do dissenso qualificado. Sem isso, a política se reduz a um campo de forças estanques, incapaz de produzir sínteses.

    Resgatar a política como instrumento de mediação significa reafirmar sua função essencial: transformar conflito em decisão e divergência em construção.

    O futuro democrático do Brasil, portanto, não será definido apenas pela vitória de um espectro político sobre outro, mas pela capacidade coletiva de reconfigurar o próprio sentido da política. Sem essa mudança, a alternância de poder corre o risco de se tornar apenas repetição de um mesmo impasse.

    Romper essa lógica exige maturidade institucional e compromisso social. A política não pode ser reduzida a mecanismo de substituição de elites, mas deve ser compreendida como espaço de elaboração contínua do futuro coletivo.

    Somente assim será possível evitar um ciclo em que governos se alternam sem que o país avance estruturalmente, mantendo-se preso a disputas recorrentes sem superação real.

    No fim, a questão central não é apenas quem vencerá as eleições de 2026, mas que tipo de democracia será preservada, ou progressivamente esvaziada, a partir delas.

    Eleições são o ápice visível de um processo muito mais profundo: a forma como uma sociedade escolhe lidar com suas diferenças, sustentar suas instituições e preservar sua capacidade de construir o comum. O resultado das urnas importa, mas não define sozinho o destino democrático.

    Se a política continuar reduzida a uma lógica de enfrentamento permanente, o risco não será apenas a alternância de governos, mas a erosão da confiança coletiva que sustenta o próprio regime democrático.

    Democracias não se desconstroem de forma abrupta. Elas se enfraquecem gradualmente, quando o diálogo cede lugar à hostilidade e quando a responsabilidade cívica é substituída pela indiferença ou pelo extremismo.

    Por outro lado, ainda há escolha possível. Ela se expressa no cotidiano: na forma de debater, na disposição para ouvir, na recusa à desinformação e no reconhecimento de que nenhum projeto de país se sustenta isoladamente.

    Talvez o verdadeiro divisor de águas de 2026 não esteja apenas nas urnas, mas na consciência que as antecede. O voto é o desfecho de um processo que começa muito antes dele.

    Assim, mais do que perguntar quem vencerá, torna-se necessário perguntar: estamos dispostos a sustentar uma democracia viva, plural e responsável?

    Porque, no limite, o futuro não será definido apenas pelos eleitos, mas pelos valores que a sociedade escolher legitimar, ou abandonar, no exercício contínuo da cidadania.

    Moisés Laureano de Santana é advogado, pós-graduado em Direito Público, Tributário e Eleitoral, com ampla e sólida experiência na Administração Pública do Estado do Rio de Janeiro, atuando em diversos cargos de direção e chefia em instituições governamentais



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